Os estudos de Sociologia devem incentivar a reflexão sobre os conceitos de
cultura, sistemas simbólicos e diversidades culturais, integrados aos conceitos
de ideologia, de indústria cultural e de meios de comunicação de massa,
com a finalidade de promover a construção e consolidação da cidadania
plena (garantindo as diversidades étnicas e estéticas e realizando a crítica do
consumismo).
Tempo previsto: 16 horas
Conceitos
Ideologia.
Cultura.
Cultura popular.
Cultura erudita.
Indústria cultural (cultura de massa).
Meios de comunicação de massa.
Consumismo.
Diversidade cultural.
Cotidiano.
ANEXO – 1
Após analisar as definições de ideologia e de cultura, vamos iniciar um novo
plano de reflexão, em que entram direta ou indiretamente em debate tanto o
conceito de cultura como o de ideologia. Estudaremos, agora, uma questão que
continua em discussão nas ciências sociais, que é a existência de duas formas
específicas de cultura em nossa sociedade: a cultura popular e a cultura erudita.
O que seria erudito? O que seria popular? O que distinguiria o popular do
erudito? A que grupo ou classe social poderíamos associar cada um desses
conceitos? Haveria algum critério de valor a separar esses conceitos, isto é,
seria possível ou correto compará-los e julgá-los?
O “popular” relaciona-se ao povo; o “erudito”, à elite (ou classe dominante,
se preferirmos). Essa seria, sem dúvida, a associação mais imediata a
ser feita com esses conceitos. Mas para fazer ou não essa associação é preciso
analisar os porquês daquela oposição inicial. Por que distinguir dois tipos de
cultura e dar a eles valores diferenciados?
A questão da existência de uma cultura popular versus uma cultura erudita
implica modos diferenciados de ser, pensar e agir, associados aos detentores de
uma ou de outra cultura. Falar em cultura popular significa falar, simultaneamente,
em religião, em arte, em ciência populares – sempre em oposição a um similar
erudito, que pode ser traduzido em dominante, dada a dimensão dicotômica
(dominante versus dominado) que caracteriza a sociedade capitalista.
Mas como defini-las e distingui-las? A pergunta permanece. Há autores,
como veremos adiante, que dizem já não ser possível pensar em cultura puramente
popular ou puramente erudita numa sociedade como a nossa, integrada
e padronizada pela cultura de massa, ou indústria cultural. Outros autores
discordam dessa postura, diferenciando não duas, mas três culturas, em constante
inter-relação: a cultura popular, a cultura erudita e a indústria cultural,
esta última muitas vezes atuando como uma espécie de ponte entre as duas
primeiras. Mas, por enquanto, tentemos nos fixar especificamente na discussão
ainda não resolvida, como já foi dito, referente à compreensão do erudito
e do popular na contraditória sociedade capitalista que vivemos.
Cultura erudita e cultura popular: o que são e quem as produz?
Definir cultura erudita aparentemente não ocasiona grandes problemas.
Ao pensarmos em cultura erudita, quase automaticamente a associamos ao plano
da escrita e da leitura, do saber universitário, dos debates, da teoria e do
pensamento científico. Já definir cultura popular não é assim tão simples. Na
verdade, definir cultura popular representa uma polêmica que cientistas sociais,
historiadores e pensadores da cultura em geral mantêm até hoje. E, se essa
polêmica ainda existe, é possível concluir que há várias definições de “popular”.
Ao pensarmos em cultura erudita, imediatamente concluímos que seus
produtores fazem parte de uma elite política, econômica e cultural que pode
ter acesso ao saber associado à escrita, aos livros, ao estudo. A resposta já não
é tão imediata quando perguntamos quem são os produtores da cultura popular. Mas afirmar que os produtores da cultura erudita fazem parte de uma elite
não significa dizer que essa cultura seja homogênea. Para os antropólogos
Gilberto Velho e Eduardo Viveiros de Castro, é impossível definir cultura erudita,
porque não podem ser homogeneizados os elementos culturais produzidos
por intelectuais, fazendeiros, empresários, burocratas, etc. Porém, é igualmente
impossível definir cultura popular, dadas as produções culturais diferenciadas
de camponeses, operários, classes médias baixas, etc.
De qualquer forma, não podemos perder de vista que o espaço reservado
na sociedade para cada uma das duas culturas é bastante diferenciado.
Enquanto a cultura erudita é transmitida pela escola e confirmada pelas instituições
(governo, religião, economia), existe uma outra cultura que não se encontra
nos esquemas oficiais. Mas onde está essa cultura? Para descobrir o
seu lugar, pensemos nas definições que os estudiosos têm dado ao conceito de
cultura popular. O historiador inglês Peter Burke define a cultura popular como
uma cultura não oficial, do povo comum. Nesse sentido, o autor segue o pensamento
de Antonio Gramsci, para quem a cultura popular é a cultura do povo,
e os seus produtores são as classes subalternas. Para Gramsci, a cultura popular,
por ser ligada à tradição, é conservadora. No entanto, por ser capaz de
incorporar e reconstruir novos elementos culturais, é também inovadora.
Segundo o antropólogo brasileiro Carlos Brandão, quem faz cultura popular
ou folclore (voltaremos mais tarde a esse conceito) nem sequer imagina
que o que faz tem um outro nome, tem uma ou outra definição, causa ou não
causa polêmicas entre intelectuais. As populações que os estudiosos aproximariam
do conceito e da prática da cultura popular (ou do folclore) vivem, têm
suas atividades cotidianas, divertem-se, têm suas maneiras de ver o mundo e
entender a vida, cantam, dançam, sentem e trabalham. Essas coisas seriam
cultura popular? Essas coisas seriam folclore, ou, como Brandão ouviu em suas
andanças pelo interior do Brasil, “focrore”?
Além disso, talvez seja importante refletir sobre mais uma última questão:
que pessoas se interessam por essas definições? E aqui a resposta é rápida: mais
do que aos próprios produtores da chamada cultura popular, essas questões interessam
aos estudiosos, que, por sinal, numa associação mais imediata, seriam associados
à elite e à esfera da cultura erudita, já que lêem, escrevem e debatem.
Cultura popular e cultura erudita: conflito e incorporação
A questão presente em todos esses movimentos culturais, dos mais antigos
aos mais recentes, refere-se à real definição do popular e do erudito. Se o
popular fosse considerado exclusivamente como tradição e, portanto, como
algo a ser conservado e protegido, introduzir guitarras elétricas no que se
convencionou chamar de “música popular brasileira” seria inaceitável (e, de
fato, isso causou escândalo na década de 60, quando o Tropicalismo e mesmo
a Jovem Guarda de Roberto Carlos surgiram – e com eles, as guitarras, os
cabelos compridos, as calças apertadas).
Se, por outro lado, o erudito significasse somente aquilo a que se
convencionou chamar de “belas-artes”, música e teatro clássicos, não se poderia
pensar na transcrição para a linguagem plástica, escrita e musical de
imagens, poemas e canções do folclore (e estes, por sua vez, só seriam folclore,
ou cultura popular, se fossem passados oralmente, de pai para filho, sem
alterações, ao longo dos séculos).
Como sabemos, nada disso acontece. Numa sociedade complexa como
esta em que vivemos, não é possível ignorar as inter-relações estabelecidas
entre a cultura erudita e a cultura popular e sua importância no próprio estabelecimento
e manutenção da sociedade. A cultura erudita procura compreender
e incorporar elementos da cultura popular (segundo muitos autores até
para melhor dominá-la). Isso não significa, porém, que a cultura popular não
resista a essa incorporação e não incorpore e reelabore, ela mesma, elementos
tradicionalmente associados à cultura erudita.
Para compreender todas essas inter-relações é preciso pensar que todos os
elementos enumerados no início do item “Cultura popular e cultura erudita no
Brasil” – festas, literatura, culinária, religião, etc. – trazem em si a organização
político-econômico-cultural do país, suas regras, suas contradições. Apesar de
estarem associados imediatamente a uma certa visão do povo e da cultura
popular brasileira, da elite e da cultura erudita, esses elementos não são necessariamente
harmoniosos nem estão parados no tempo. Ao contrário, vão se
transformando, ao longo da história e das relações sociais, num movimento dinâmico
e incessante que é o que caracteriza o ser humano e a vida em sociedade.
Para ilustrar, poderíamos utilizar o exemplo da feijoada. Com o passar do
tempo, ela deixou de ser comida de escravos e passou a ser um símbolo de
nacionalidade, sendo servida não só nos restaurantes simples como nos requintados.
Para compreender a cultura e seus significados, é necessário acompanhar
as etapas de transformação de seus elementos, como no exemplo da
feijoada, e tentar descobrir as suas causas.
Existe uma tendência a se considerar tudo aquilo que se relaciona com a
cultura popular como algo antigo, ultrapassado, que precisa acabar e dar lugar
ao novo, ao moderno (em geral associado ao erudito). Curiosamente, muito do
que se convencionou chamar de velho e ultrapassado é associado também à
identidade nacional, isto é, àqueles elementos que fazem com que uma determinada
população se identifique como um grupo de pessoas possuidor dos
mesmos interesses, objetivos e visão de mundo; em resumo, que se identifique
como nação. Esses elementos, se por um lado reforçam a identidade, por outro
acabam estimulando a padronização de gostos, interesses e necessidades,
fazendo com que as pessoas se esqueçam de que vivem em uma sociedade
por definição contraditória, já que dividida em classes.
A indústria cultural vai ser um elemento-chave para pensarmos nessas questões.
Nelson Dácio Tomazi, Iniciação à Sociologia, São Paulo, Atual, 1993, p. 179-182, 190-191.
Anexo - 2
Cultura de massa ou indústria cultural
Entre os autores preocupados em definir a indústria cultural ou cultura de
massa e compreender o seu papel na sociedade atual, existem posições diferentes
e até opostas. De maneira breve, examinemos algumas visões sobre a questão.
O termo indústria cultural foi criado por Theodor Adorno (1903-1969) e
Max Horkheimer (1895-1973), membros de um grupo de filósofos conhecido
como Escola de Frankfurt. Ao fazerem a análise da atuação dos meios de
comunicação de massa (que a partir de agora serão chamados pela sigla mdcm),
esses autores concluíram que eles funcionavam como uma verdadeira indústria
de produtos culturais, visando exclusivamente ao consumo. Conforme Adorno,
a indústria cultural vende mercadorias, mas, mais do que isso, vende imagens
do mundo e faz propaganda deste mundo tal qual ele é e para que ele
assim permaneça.
Segundo os dois autores, a indústria cultural pretenderia integrar os consumidores
das mercadorias culturais, agindo como uma ponte nociva entre a
cultura erudita e a popular. Nociva porque retiraria a seriedade da primeira e a
autenticidade da segunda. Adorno e Horkheimer vêem a indústria cultural como
qualquer indústria, organizada em função de um público-massa (abstrato e
homogeneizado) e baseada nos princípios da lucratividade.
Poderíamos pensar, a partir do que os autores indicam, que a indústria
cultural venderia mercadorias culturais como pasta de dentes ou automóveis,
e o público receberia esses “produtos” sem saber diferenciá-los ou sem questionar
seu conteúdo. Assim, após uma sinfonia de Beethoven, uma estação de
rádio poderia veicular o anúncio de um restaurante e, depois dele, noticiar um
golpe de Estado ou terremoto, sem nenhuma profundidade, sem nenhuma
discussão. Nesse sentido, é preciso observar como essa sucessão de música,
propaganda e notícia ilustra o caráter fragmentário dos mdcm, principalmente
o rádio e a televisão (esta, por sinal, profundamente criticada por Adorno).
Os meios tecnológicos tornaram possível reproduzir obras de arte em escala
industrial. Para os autores, essa produção em série (por exemplo, os discos
de música clássica, as reproduções de pinturas, a música erudita como pano
de fundo de filmes de cinema) não democratizou a arte. Simplesmente, banalizou-
a, descaracterizou-a, fazendo com que o público perdesse o senso crítico
e se tornasse um consumidor passivo de todas as mercadorias anunciadas pelos
mdcm. Nesse caso, o fato de um operário assobiar, durante o seu trabalho,
um trecho da ópera que ouviu no rádio não significaria que ele estaria compreendendo
a profundidade daquela obra de arte, mas apenas que ele a memorizou,
como faria com qualquer canção sertaneja, romântica, ou mesmo um
jingle que ouvisse no mesmo rádio.
Para Adorno, a indústria cultural tem como único objetivo a dependência
e a alienação dos homens. Ao maquiar o mundo nos anúncios que veicula, ela
acaba seduzindo as massas para o consumo das mercadorias culturais, a fim de que elas se esqueçam da exploração que sofrem nas relações de produção.
A indústria cultural estimularia, portanto, o imobilismo.
Ao contrário de Adorno e Horkheimer, Marshall McLuhan (1911-1980)
via a atuação dos mdcm de maneira otimista. Estudando principalmente a televisão,
o autor acreditava que ela poderia aproximar os homens, diminuindo
as distâncias não apenas territoriais como sociais entre eles. O mundo iria transformar-
se, então, numa espécie de “aldeia global”, expressão que acabou ficando
clássica entre os teóricos da comunicação.
O crítico Umberto Eco, por sua vez, faz uma distinção polêmica entre os
autores dedicados ao estudo da indústria cultural. Segundo ele, esses autores
dividem-se entre “apocalípticos” (aqueles que criticam os meios de comunicação
de massa) e “integrados” (aqueles que os elogiam). Entre os motivos para
criticar os mdcm, segundo os “apocalípticos”, estariam:
•a veiculação que eles realizam de uma cultura homogênea (que
desconsidera diferenças culturais e padroniza o público);
•o seu desestímulo à sensibilidade;
•o estímulo publicitário (criando, junto ao público, novas necessidades de
consumo);
•a sua definição como simples lazer e entretenimento, desestimulando o
público a pensar, tornando-o passivo e conformista.
Nesse sentido, os mdcm seriam usados para fins de controle e manutenção
da sociedade capitalista.
Entre os motivos para elogiar os mdcm, apontados pelos “integrados”,
estariam:
•serem os mdcm a única fonte de informação possível a uma parcela da
população que sempre esteve distante das informações;
•as informações veiculadas por eles poderem contribuir para a própria
formação intelectual do público;
•a padronização de gosto gerada por eles funcionar como um elemento
unificador das sensibilidades dos diferentes grupos.
Nesse sentido, os mdcm não seriam característicos apenas da sociedade
capitalista, mas de toda sociedade democrática.
Eco irá criticar as duas concepções. Os “apocalípticos” estariam equivocados
por considerarem a cultura de massa ruim simplesmente por seu caráter
industrial. Para Eco, não se pode ignorar que a sociedade atual é industrial e
que as questões culturais têm que ser pensadas a partir dessa constatação. Os
“integrados”, por sua vez, estariam errados por esquecerem que normalmente
a cultura de massa é produzida por grupos de poder econômico com fins
lucrativos, o que significa a tentativa de manutenção dos interesses desses
grupos através dos próprios mdcm. Além disso, não é pelo fato de veicular
produtos culturais que a cultura de massa deva ser considerada naturalmente
boa, como querem os “integrados”.
Eco acredita que não se pode pensar a sociedade moderna sem os mdcm.
Nesse sentido, sua preocupação é descobrir que tipo de ação cultural deve ser
estimulado para que os mdcm realmente veiculem valores culturais.
Nesse sentido, o papel dos intelectuais será fundamental, pois eles é que
irão fiscalizar e exigir que isso aconteça.
Outro autor também ligado à Escola de Frankfurt, mas com uma concepção
diferente do papel da indústria cultural, é Walter Benjamin (1886-1940).
Para ele, a revolução tecnológica do final do século XIX e início do século XX
não acabou com a cultura erudita, como pensavam Adorno e Horkheimer, mas
alterou o papel da arte e da cultura. Os mdcm e suas novas formas de produção
cultural propiciaram mudanças na percepção e na assimilação do público
consumidor, podendo, inclusive, gerar novas formas de mobilização e contestação
por parte desse público.
Para Benjamin, a possibilidade de reprodução técnica das obras de arte
retirou delas o seu caráter único e mágico (o que ele chama de sua “aura”).
Em compensação, possibilitou que elas saíssem dos palácios e museus e fossem
conhecidas por um número infinito de pessoas. Por exemplo, a reprodução
fotográfica permitiu que qualquer pessoa pudesse ter em sua sala as clássicas
Monalisa e Santa ceia, de Leonardo da Vinci; a reprodução fonográfica
fez com que muito mais pessoas pudessem escutar (e quantas vezes quisessem)
uma sinfonia de Mozart.
O impacto que a indústria cultural moderna pode provocar no público
consumidor não seria, portanto, necessariamente negativo, podendo, ao contrário,
contribuir para a emancipação desse público e para a melhoria da sociedade,
uma vez que ampliaria o seu horizonte de conhecimento.
Muitos críticos consideram a visão de Adorno e Horkheimer sobre a indústria
cultural conservadora. Segundo eles, a posição desses autores, ao dizerem
que a indústria cultural banalizaria a cultura erudita (que eles denominavam
“alta cultura”), seria de valorizar a cultura burguesa. E não apenas isso,
seria também de depreciar a cultura popular, que, segundo eles, ficaria ainda
mais simplificada no âmbito da indústria cultural, e a própria capacidade crítica
do público, considerado mero consumidor de mercadorias culturais, produzidas
industrialmente.
Essas diferentes visões sobre a indústria cultural, expostas de maneira
simplificada, poderão servir como elementos para refletirmos sobre a questão
da indústria cultural no Brasil.
Nelson Dácio Tomazi, Iniciação à Sociologia, São Paulo, Atual, 1993.
ANEXO - 3
3 QUESTÕES SOBRE CONSUMISMO
1. Como definir o comportamento consumista?
2. Quais são suas causas?
3. O consumismo pode ser terapêutico?
Ana Verônica Mautner responde
1. Comportamento consumista está associado, em primeiro lugar, à idéia
de exagero e também à condição de insaciabilidade. O sujeito quer mais, sempre
mais. Nessa etapa do processo ocorre uma mudança qualitativa. Ele deixa de
apenas querer para querer exibir. Não se trata de exibir o que comprou. A exibição
está no ato da troca, que culmina na aquisição. É no ato de conseguir a
posse do bem, ou coisa, que encontramos a gratificação máxima do consumista.
A questão, pois, reside no tema do poder. Eu quero (peço, encomendo, tomo).
Pago e depois levo. Resumindo, diria que o comportamento consumista se caracteriza
por uma insaciável necessidade de exibir poder. Às vezes o que se
adquire é colecionado ou consumido ou distribuído ou simplesmente guardado.
De qualquer forma, a negociação, a troca, contém o “gozo” que mantém o
comportamento que psicólogos enquadram na categoria de compulsivo: o prazer
no ato da compra é a gratificação que mantém o comportamento consumista.
2. A mobilidade social, característica essencial do mundo moderno, exige
dos membros da sociedade uma flexibilidade que nem sempre conseguimos.
Nessa questão, crises egóicas de poder fluem para o consumo. Daí até que o
ato de comprar sobrepuje a necessidade de ter é menos do que um passo. “O
que” e “como” consumimos tornam-se nosso cartão de visita. O ato de comprar
é, nesse contexto, elemento volátil na formação da identidade.
3. O comportamento consumista enquanto fator de formação de identidade
exerce o mesmo tipo de terapia que os remédios anestésicos: dá um descanso
ao sofredor. Diminui a dor psíquica que sentimos quando elementos identificatórios
não estão definidos. Quando a intolerância à dor atinge formas patológicas, seu
uso deixa de ser terapêutico para tornar-se o causador de outras dores. É como a
aspirina, que, tomada em excesso, dá azia. Comportamento consumista cria conflitos
no lar, gera dívidas, juros e outros tantos inconvenientes. O comportamento
consumista pode ser visto, pois, como uma das tentativas de que dispomos para
driblar a sensação de impotência que a forma de organização da sociedade moderna
(massa de indivíduos à procura de individuação) gera em seus membros.
Everardo Rocha responde
1. O consumo, na sociedade moderna, se liberta dos limites da tradição
para se tornar um princípio fundamental, isto é, um sistema que, para
além de saciar “necessidades” biológicas ou econômicas, serve a que os indivíduos estabeleçam semelhanças e diferenças entre si. A chamada “sociedade
de consumo” nasce de um longo processo histórico, que envolve
marcos como a corte elisabetana (século 16), o romantismo (século 18 e
início do 19) e os meios de comunicação de massa (séculos 19 e 20); em si
mesmo, tal modelo não é um mal, e sim uma “linguagem”, que visa a singularizar
“indivíduos” em princípio igualados (pela democracia e o mercado).
O mal está na apropriação indébita dessa linguagem – que podemos
chamar de “consumismo”.
2. Nesse caso, o “consumo, logo comunico” dá lugar ao “consumo,
logo existo”, e a pessoa vê a si própria e todos os valores reduzidos à
compulsão e ao sofrimento de “possuir” sempre mais. Esquecemos, assim
– vide nossos festejos de Natal –, o que as festas primitivas (“kula”) tinham
como postulado básico: o ato de trocar, a “relação”, vale mais que as coisas
dadas ou recebidas.
Como sugeri na resposta anterior, a atitude consumista é uma
distorção, uma apropriação perversa das modernas regras de sociabilidade.
Não vejo, por exemplo, na mídia o poder de manipulação suficiente
para que fosse julgada “a responsável” por esse comportamento. Creio,
antes, que o consumismo é uma variante exacerbada da sociedade de
consumo, que se pode identificar em personagens como a protagonista
de “Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert, ou James Bond, cujas
roupas, bebidas, mulheres, cigarros transmitiam o ideário “american way”
do período da Guerra Fria.
3. A pessoa que se separou e sai para as compras não resolverá, com
isso, seu problema interno – ao contrário do que crê o consumista –, mas poderá
ritualizar a tristeza, do mesmo modo como, antigamente, a roupa preta
sinalizava a entrada e saída no período de luto: nos dois casos, o consumo
ajuda à expressão de um outro olhar. Nesse sentido, consumir é terapêutico,
assim como o é para o amigo que, dando um presente ao outro, exprime e
reforça esse vínculo.
In Folha de S. Paulo, 17/12/00, Mais!, p. 3.
Ana Verônica Mautner é psicanalista e escritora, autora de Crônicas científicas;
Everardo Rocha é antropólogo e professor de Comunicação Social na PUC-RJ,
autor de A sociedade do sonho.
Módulo 3
Anexo- 4
Tigrão, a Febem e nós
SÃO PAULO - Não houve ontem, ao que consta, nenhuma morte, nenhuma
rebelião na Febem, a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (sic). Na
falta de notícia mais emocionante, programas de TV dedicados à “família brasileira”
devem tê-la divertido com o funk do Tigrão.
O fenômeno musical (?) da vez, oriundo do Rio, chegou aos bolsões ricos de
São Paulo. Tchutchuquinhas dos Jardins e da Vila Olímpia (bairro novo-rico da capital
que explica por que Maluf é possível) imitam as “minas” da Cidade de Deus,
boca quente do crime no Rio. Repetem sorrindo que “um tapinha não dói”.
A anomia da periferia se integra ao Brasil legal pela mídia, na forma de espetáculo.
A violência temperada com sexo, à Gilberto Freyre, que todos consomem
como diversão pela TV, é regularmente intercalada com o show de horror ao vivo
da Febem. A convivência das duas coisas explica muito da exclusão brasileira.
Se algum sociólogo se dispusesse a vasculhar a história da turma do Tigrão,
na Cidade de Deus, e dos “manos” de Batoré, na Febem, encontraria provavelmente
uma origem comum. Seus avós começaram a engordar, ainda nos
anos JK, uma imensa periferia que foi excluída dos benefícios da modernização.
Três ou quatro gerações de promessas frustradas e pauperização criaram
esses tipos brasileiros, diante dos quais a classe média se diverte ou se horroriza.
Na Febem ou fora dela, jovens miseráveis não têm mais a ilusão de que serão
incorporados à vida decente. Sobrevivendo no inferno, como diz Mano Brown,
não acreditam mais, como seus pais ou avós, que uma vida de privações e esforços
poderia ser recompensada por um futuro melhor, para seus filhos que fosse.
Que ninguém se iluda: caso perdido, a Febem deixou há muito de ser
encarada como problema, desde que quem ali morra antes de virar adulto
permaneça enjaulado. O Brasil já integrou seus tigrões. Basta ligar a TV.
Fernando de Barros e Silva, in Folha de S. Paulo, 19/3/01, p. A-2.
ANEXO - 5
TV alavanca romance de Eça de Queirós
Clássico da literatura portuguesa do século 19, “Os Maias” se beneficia da
adaptação para a televisão e entra em quinto lugar no ranking Datafolha.
Um clássico português do século 19, o romance “Os Maias”, aparece na
quinta colocação do ranking Datafolha dos livros mais vendidos em ficção. O
romance, que narra a decadência da aristocracia portuguesa do século 19, se
beneficiou da adaptação para a TV, que resultou na minissérie que está sendo
veiculada pela Globo. “Os Maias”, que tem edições da Nova Alexandria, L&PM
e Ediouro, é o mais vendido na lista só do Rio de Janeiro, embora não figure no
ranking em São Paulo. O primeiro lugar na capital paulista, e também no ranking
geral das duas cidades, em ficção, ficou com “Ninguém É de Ninguém”, de
Zibia Gasparetto.
Folha de S. Paulo, 4/3/01, Mais!, p. 22.
ANEXO - 6
3 QUESTÕES SOBRE EDUCAÇÃO E INTERNET
1. A internet beneficia ou prejudica a aprendizagem?
2. Em que medida a navegação na rede altera o conceito de aprendizagem?
3. Ela pode desbancar o ensino tradicional?
Valdemar Setzer responde
1. Depende. Se for criança ou jovem até uns 16 anos de idade, prejudica
muitíssimo, pois acelera indevidamente o desenvolvimento.
2. A educação sempre foi altamente contextual: um pai sempre examina
um livro antes de comprá-lo para seu filho; uma professora dá uma
aula tendo em vista o que ela deu em dias anteriores, a maturidade da
classe e, idealmente, de cada aluno etc. A internet é totalmente
descontextualizada. Crianças e jovens não têm capacidade para decidir o
que é adequado para eles, pois, se tiverem, estarão indevidamente se comportando
como adultos. TV, joguinhos eletrônicos e computador – e a internet
em particular – produzem aceleração altamente prejudicial: qualquer queima
de etapas em desenvolvimento e educação produz desequilíbrios fisiológicos
e psicológicos.
Além disso, o que se obtém por meio da internet são dados, eventualmente
interpretados como informação. Esta é quase irrelevante diante do que a educação deveria ser: desenvolvimento de capacidades sociais, artísticas e
científicas, principalmente por meio de vivências reais e não de abstrações
virtuais.
3. Sim, pois estamos num mundo verdadeiramente cão, onde as pessoas
– em grande parte devido aos meios eletrônicos – perderam a sensibilidade, a
intuição sobre o que deve ser uma educação sadia e equilibrada, adequada a
cada idade. Essa perda não foi, em geral, substituída por uma necessária
conceituação holística do que é o ser humano e a sua educação. Estamos na
“era do cosmético”; ele é mais importante do que o conteúdo.
TV, joguinho e computador são especialistas em cosméticos, atraindo pela
forma, não pelo conteúdo, pela virtualidade, não pela realidade. A atração
que o uso do computador na educação exerce nas crianças e jovens deveria
servir de alerta para o fato de que ela está falida, pois é um absurdo uma
máquina atrair mais do que um ser humano. A “escola do futuro” deveria ser
mais humana, e não mais tecnológica, pois esta vai produzir futuros adultos
menos humanos, comportando-se como animais e máquinas.
O nazismo será fichinha perto do que essas crianças e jovens
informatizados farão no futuro (e estão começando a fazer) e o sofrimento por
que passarão.
Rogério da Costa responde
1. Talvez o que mais prejudique o aprendizado seja a própria idéia que
temos de aprendizagem. Se acreditarmos que alguém possa aprender de modo
diverso do que é proposto pelo sistema professor-aluno, que é possível aprender
quando trocamos idéias com outras pessoas, que, ao relacionarmos informações
dispersas, estamos, de algum modo, produzindo conhecimento, então
a internet beneficia o aprendizado. Por outro lado, não há nada que prejudique
mais o aprendizado tradicional do que um professor despreparado ou mal
amparado materialmente. Esse problema a internet não irá resolver, mas poderá
ajudar a resolver.
2. A navegação na rede significa, basicamente, a possibilidade de explorarmos
de um modo não-linear universos distintos de informações e conhecimentos.
Ora, a idéia de “exploração”, por si só, já nos convida a refletir sobre a aprendizagem
de uma maneira distinta daquela que comumente entendemos: a “recepção”
do conhecimento exclusivamente por meio do professor. Porém a própria
atividade de exploração dos mundos virtuais requer um aprendizado! Isso nos leva
a crer que o ensino tradicional terá um papel importante a desempenhar nesse
aspecto: ensinar o aluno a ser ele próprio o explorador de seu universo de interesses.
As comunidades virtuais e o aprendizado coletivo que elas implicam constituem
outro aspecto fundamental da navegação em rede. Aprender a “aprender
coletivamente” talvez seja uma outra tarefa para o ensino fundamental.
3. Penso que não é produtivo estabelecermos uma concorrência entre o
ensino por meio de ambientes virtuais e o ensino tradicional. Ao contrário, eles
podem ser vistos como perfeitamente complementares. Cabe lembrar, no entanto,
que o fato de estarmos sendo provocados a pensar o ensino via internet, com
todo o desafio que isso significa e com toda a riqueza que ele nos promete, nos faz
refletir sobre a própria arquitetura do ensino tradicional que temos hoje. Isso nos
leva a crer que nossa relação com o ensino presencial se tornará cada vez mais
complexa, mais crítica e, esperamos, mais rica em mudanças e inovações.
In Folha de S. Paulo, 23/7/00, Mais!, p. 3. Valdemar Setzer é professor do Departamento de Ciência
da Computação da USP, autor de Introdução à rede internet e seu uso; Rogério da Costa é professor
de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, autor de Limiares do contemporâneo
ANEXO - 7
Texto 1
PELA INTERNET
Gilberto Gil
CRIAR MEU WEB SITE
FAZER MINHA HOME-PAGE
COM QUANTOS GIGABYTES
SE FAZ UMA JANGADA
UM BARCO QUE VELEJE
QUE VELEJE NESSE INFOMAR
QUE APROVEITE A VAZANTE DA INFOMARÉ
QUE LEVE UM ORIKI DO MEU VELHO ORIXÁ
AO PORTO DE UM DISQUETE DE UM MICRO EM TAIPÉ
UM BARCO QUE VELEJE NESSE INFORMAR
QUE APROVEITE A VAZANTE DA INFORMARÉ
QUE LEVE MEU E-MAIL ATÉ CALCUTÁ
DEPOIS DE UM HOT-LINK
NUM SITE DE HELSINQUE
PARA ABASTECER
EU QUERO ENTRAR NA REDE
PROMOVER UM DEBATE
JUNTAR VIA INTERNET
UM GRUPO DE TIETES DE CONNECTICUT
DE CONNECTICUT ACESSAR
O CHEFE DA MACMILÍCIA DE MILÃO
UM HACKER MAFIOSO ACABA DE SOLTAR
UM VÍRUS PARA ATACAR PROGRAMAS NO JAPÃO
EU QUERO ENTRAR NA REDE PRA CONTACTAR
OS LARES DO NEPAL, OS BARES DO GABÃO
QUE O CHEFE DA POLÍCIA CARIOCA AVISA PELO CELULAR
QUE LÁ NA PRAÇA ONZE TEM UM VIDEOPOKER PARA SE JOGAR
Texto 2
CÉREBRO ELETRÔNICO
Gilberto Gil
O CÉREBRO ELETRÔNICO FAZ TUDO
FAZ QUASE TUDO
QUASE TUDO
MAS ELE É MUDO
O CÉREBRO ELETRÔNICO COMANDA
MANDA E DESMANDA
ELE É QUEM MANDA
MAS ELE NÃO ANDA
SÓ EU POSSO PENSAR SE DEUS EXISTE
SÓ EU
SÓ EU POSSO CHORAR QUANDO ESTOU TRISTE
SÓ EU
EU CÁ COM MEUS BOTÕES DE CARNE E OSSO
HUM, HUM,
EU FALO E OUÇO
HUM, HUM,
EU PENSO E POSSO
EU POSSO DECIDIR SE VIVO OU MORRO
PORQUE
PORQUE SOU VIVO, VIVO PRA CACHORRO
E SEI
QUE CERÉBRO ELETRÔNICO NENHUM ME DÁ SOCORRO
EM MEU CAMINHO INEVITÁVEL PARA A MORTE
PORQUE SOU VIVO, AH, SOU MUITO VIVO
E SEI
QUE A MORTE É NOSSO IMPULSO PRIMITIVO
E SEI
QUE CERÉBRO NENHUM ME DÁ SOCORRO
COM SEUS BOTÕES DE FERRO E SEUS OLHOS DE VIDRO
Ambas as músicas in CD Gilberto Gil ao vivo, 1999.
ANEXO -8
CINEMA NOVO
Gilberto Gil e Caetano Veloso
O FILME QUIS DIZER “EU SOU O SAMBA”
A VOZ DO MORRO RASGOU A TELA DO CINEMA
E COMEÇARAM A SE CONFIGURAR
VISÕES DAS COISAS GRANDES E PEQUENAS
QUE NOS FORMARAM E ESTÃO A NOS FORMAR
TODAS E MUITAS: DEUS E O DIABO, VIDAS SECAS. OS FUZIS.
OS CAFAJESTES, O PADRE E A MOÇA. A GRANDE FEIRA, O DESAFIO
OUTRAS CONVERSAS, OUTRAS CONVERSAS SOBRE OS JEITOS DO BRASIL
OUTRAS CONVERSAS SOBRE OS JEITOS DO BRASIL
A BOSSA NOVA PASSOU NA PROVA
NOS SALVOU NA DIMENSÃO DA ETERNIDADE
PORÉM AQUI EMBAIXO “A VIDA”. MERA “METADE DE NADA”
NEM MORRIA NEM ENFRENTAVA O PROBLEMA
PEDIA SOLUÇÕES E EXPLICAÇÕES
E FOI POR ISSO QUE AS IMAGENS DO PAÍS DESSE CINEMA
ENTRARAM NAS PALAVRAS DAS CANÇÕES
PRIMEIRO FORAM AQUELAS QUE EXPLICAVAM
E A MÚSICA PARAVA PRA PENSAR
MAS ERA TÃO BONITO QUE PARASSE
QUE A GENTE NEM QUERIA RECLAMAR
DEPOIS FORAM AS IMAGENS QUE ASSOMBRAVAM
E OUTRAS PALAVRAS JÁ QUERIAM SE CANTAR
DE ORDEM DE DESORDEM DE LOUCURA
O DE ALMA À MEIA-NOITE E DE INDÚSTRIA
E A TERRA ENTROU EM TRANSE Ê
NO SERTÃO DE IPANEMA
EM TRANSE Ê, NO MAR DE MONTE SANTO
E A LUZ DO NOSSO CANTO. E AS VOZES DO POEMA
NECESSITARAM TRANSFORMAR-SE TANTO
QUE O SAMBA QUIS DIZER, O SAMBA QUIS DIZER: EU SOU CINEMA
AÍ O ANJO NASCEU, VEIO O BANDIDO METERORANGO,
HITLER TERCEIRO MUNDO. SEM ESSA ARANHA. FOME DE AMOR
E O FILME DISSE: EU QUERO SER POEMA
OU MAIS: QUERO SER FILME E FILME-FILME
ACOSSADO NO LIMITE DA GARGANTA DO DIABO
VOLTAR À ATLÂNTIDA E ULTRAPASSAR O ECLIPSE
MATAR O OVO E VER A VERA CRUZ
E O SAMBA AGORA DIZ: EU SOU A LUZ
DA LIRA DO DELÍRIO. DA ALFORRIA DE XICA
DE TODA A NUDEZ DE ÍNDIA DE FLOR DE MACABÉIA, DE ASA BRANCA
MEU NOME É STELINHA, É INOCÊNCIA
MEU NOME É ORSON ANTÔNIO VIEIRA CONSELHEIRO DE PIXOTE
SUPER OUTRO
QUERO SER VELHO, DE NOVO ETERNO, QUERO SER NOVO DE NOVO
QUERO SER GANGA BRUTA E CLARA GEMA
EU SOU O SAMBA. VIVA O CINEMA – VIVA O CINEMA NOVO.
CD Tropicália 2, 1994.
Blog criado para proporcionar textos relacionados à Filosofia e Sociologia aos alunos do ensino médio.
Filosofia
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Cultura de massa ou indústria cultural
Entre os autores preocupados em definir a indústria cultural ou cultura de
massa e compreender o seu papel na sociedade atual, existem posições diferentes
e até opostas. De maneira breve, examinemos algumas visões sobre a questão.
O termo indústria cultural foi criado por Theodor Adorno (1903-1969) e
Max Horkheimer (1895-1973), membros de um grupo de filósofos conhecido
como Escola de Frankfurt. Ao fazerem a análise da atuação dos meios de
comunicação de massa (que a partir de agora serão chamados pela sigla mdcm),
esses autores concluíram que eles funcionavam como uma verdadeira indústria
de produtos culturais, visando exclusivamente ao consumo. Conforme Adorno,
a indústria cultural vende mercadorias, mas, mais do que isso, vende imagens
do mundo e faz propaganda deste mundo tal qual ele é e para que ele
assim permaneça.
Segundo os dois autores, a indústria cultural pretenderia integrar os consumidores
das mercadorias culturais, agindo como uma ponte nociva entre a
cultura erudita e a popular. Nociva porque retiraria a seriedade da primeira e a
autenticidade da segunda. Adorno e Horkheimer vêem a indústria cultural como
qualquer indústria, organizada em função de um público-massa (abstrato e
homogeneizado) e baseada nos princípios da lucratividade.
Poderíamos pensar, a partir do que os autores indicam, que a indústria
cultural venderia mercadorias culturais como pasta de dentes ou automóveis,
e o público receberia esses “produtos” sem saber diferenciá-los ou sem questionar
seu conteúdo. Assim, após uma sinfonia de Beethoven, uma estação de
rádio poderia veicular o anúncio de um restaurante e, depois dele, noticiar um
golpe de Estado ou terremoto, sem nenhuma profundidade, sem nenhuma
discussão. Nesse sentido, é preciso observar como essa sucessão de música,
propaganda e notícia ilustra o caráter fragmentário dos mdcm, principalmente
o rádio e a televisão (esta, por sinal, profundamente criticada por Adorno).
Os meios tecnológicos tornaram possível reproduzir obras de arte em escala
industrial. Para os autores, essa produção em série (por exemplo, os discos
de música clássica, as reproduções de pinturas, a música erudita como pano
de fundo de filmes de cinema) não democratizou a arte. Simplesmente, banalizou-
a, descaracterizou-a, fazendo com que o público perdesse o senso crítico
e se tornasse um consumidor passivo de todas as mercadorias anunciadas pelos
mdcm. Nesse caso, o fato de um operário assobiar, durante o seu trabalho,
um trecho da ópera que ouviu no rádio não significaria que ele estaria compreendendo
a profundidade daquela obra de arte, mas apenas que ele a memorizou,
como faria com qualquer canção sertaneja, romântica, ou mesmo um
jingle que ouvisse no mesmo rádio.
Para Adorno, a indústria cultural tem como único objetivo a dependência
e a alienação dos homens. Ao maquiar o mundo nos anúncios que veicula, ela
acaba seduzindo as massas para o consumo das mercadorias culturais, a fim de que elas se esqueçam da exploração que sofrem nas relações de produção.
A indústria cultural estimularia, portanto, o imobilismo.
Ao contrário de Adorno e Horkheimer, Marshall McLuhan (1911-1980)
via a atuação dos mdcm de maneira otimista. Estudando principalmente a televisão,
o autor acreditava que ela poderia aproximar os homens, diminuindo
as distâncias não apenas territoriais como sociais entre eles. O mundo iria transformar-se, então, numa espécie de “aldeia global”, expressão que acabou ficando
clássica entre os teóricos da comunicação.
O crítico Umberto Eco, por sua vez, faz uma distinção polêmica entre os
autores dedicados ao estudo da indústria cultural. Segundo ele, esses autores
dividem-se entre “apocalípticos” (aqueles que criticam os meios de comunicação
de massa) e “integrados” (aqueles que os elogiam). Entre os motivos para
criticar os mdcm, segundo os “apocalípticos”, estariam:
· a veiculação que eles realizam de uma cultura homogênea (que
desconsidera diferenças culturais e padroniza o público);
· o seu desestímulo à sensibilidade;
· o estímulo publicitário (criando, junto ao público, novas necessidades de
consumo); a sua definição como simples lazer e entretenimento, desestimulando o
público a pensar, tornando-o passivo e conformista.
Nesse sentido, os mdcm seriam usados para fins de controle e manutenção
da sociedade capitalista.
Entre os motivos para elogiar os mdcm, apontados pelos “integrados”,
estariam:
· serem os mdcm a única fonte de informação possível a uma parcela da
população que sempre esteve distante das informações;
· as informações veiculadas por eles poderem contribuir para a própria
formação intelectual do público;
· a padronização de gosto gerada por eles funcionar como um elemento
unificador das sensibilidades dos diferentes grupos.
Nesse sentido, os mdcm não seriam característicos apenas da sociedade
capitalista, mas de toda sociedade democrática.
Eco irá criticar as duas concepções. Os “apocalípticos” estariam equivocados
por considerarem a cultura de massa ruim simplesmente por seu caráter
industrial. Para Eco, não se pode ignorar que a sociedade atual é industrial e
que as questões culturais têm que ser pensadas a partir dessa constatação. Os
“integrados”, por sua vez, estariam errados por esquecerem que normalmente
a cultura de massa é produzida por grupos de poder econômico com fins
lucrativos, o que significa a tentativa de manutenção dos interesses desses
grupos através dos próprios mdcm. Além disso, não é pelo fato de veicular
produtos culturais que a cultura de massa deva ser considerada naturalmente
boa, como querem os “integrados”.
493
Anexo
Eco acredita que não se pode pensar a sociedade moderna sem os mdcm.
Nesse sentido, sua preocupação é descobrir que tipo de ação cultural deve ser
estimulado para que os mdcm realmente veiculem valores culturais.
Nesse sentido, o papel dos intelectuais será fundamental, pois eles é que
irão fiscalizar e exigir que isso aconteça.
Outro autor também ligado à Escola de Frankfurt, mas com uma concepção
diferente do papel da indústria cultural, é Walter Benjamin (1886-1940).
Para ele, a revolução tecnológica do final do século XIX e início do século XX
não acabou com a cultura erudita, como pensavam Adorno e Horkheimer, mas
alterou o papel da arte e da cultura. Os mdcm e suas novas formas de produção
cultural propiciaram mudanças na percepção e na assimilação do público
consumidor, podendo, inclusive, gerar novas formas de mobilização e contestação
por parte desse público.
Para Benjamin, a possibilidade de reprodução técnica das obras de arte
retirou delas o seu caráter único e mágico (o que ele chama de sua “aura”).
Em compensação, possibilitou que elas saíssem dos palácios e museus e fossem
conhecidas por um número infinito de pessoas. Por exemplo, a reprodução
fotográfica permitiu que qualquer pessoa pudesse ter em sua sala as clássicas
Monalisa e Santa ceia, de Leonardo da Vinci; a reprodução fonográfica
fez com que muito mais pessoas pudessem escutar (e quantas vezes quisessem)
uma sinfonia de Mozart.
O impacto que a indústria cultural moderna pode provocar no público
consumidor não seria, portanto, necessariamente negativo, podendo, ao contrário,
contribuir para a emancipação desse público e para a melhoria da sociedade,
uma vez que ampliaria o seu horizonte de conhecimento.
Muitos críticos consideram a visão de Adorno e Horkheimer sobre a indústria
cultural conservadora. Segundo eles, a posição desses autores, ao dizerem
que a indústria cultural banalizaria a cultura erudita (que eles denominavam
“alta cultura”), seria de valorizar a cultura burguesa. E não apenas isso,
seria também de depreciar a cultura popular, que, segundo eles, ficaria ainda
mais simplificada no âmbito da indústria cultural, e a própria capacidade crítica
do público, considerado mero consumidor de mercadorias culturais, produzidas
industrialmente.
Essas diferentes visões sobre a indústria cultural, expostas de maneira
simplificada, poderão servir como elementos para refletirmos sobre a questão
da indústria cultural no Brasil.
Nelson Dácio Tomazi, Iniciação à Sociologia, São Paulo, Atual, 1993
massa e compreender o seu papel na sociedade atual, existem posições diferentes
e até opostas. De maneira breve, examinemos algumas visões sobre a questão.
O termo indústria cultural foi criado por Theodor Adorno (1903-1969) e
Max Horkheimer (1895-1973), membros de um grupo de filósofos conhecido
como Escola de Frankfurt. Ao fazerem a análise da atuação dos meios de
comunicação de massa (que a partir de agora serão chamados pela sigla mdcm),
esses autores concluíram que eles funcionavam como uma verdadeira indústria
de produtos culturais, visando exclusivamente ao consumo. Conforme Adorno,
a indústria cultural vende mercadorias, mas, mais do que isso, vende imagens
do mundo e faz propaganda deste mundo tal qual ele é e para que ele
assim permaneça.
Segundo os dois autores, a indústria cultural pretenderia integrar os consumidores
das mercadorias culturais, agindo como uma ponte nociva entre a
cultura erudita e a popular. Nociva porque retiraria a seriedade da primeira e a
autenticidade da segunda. Adorno e Horkheimer vêem a indústria cultural como
qualquer indústria, organizada em função de um público-massa (abstrato e
homogeneizado) e baseada nos princípios da lucratividade.
Poderíamos pensar, a partir do que os autores indicam, que a indústria
cultural venderia mercadorias culturais como pasta de dentes ou automóveis,
e o público receberia esses “produtos” sem saber diferenciá-los ou sem questionar
seu conteúdo. Assim, após uma sinfonia de Beethoven, uma estação de
rádio poderia veicular o anúncio de um restaurante e, depois dele, noticiar um
golpe de Estado ou terremoto, sem nenhuma profundidade, sem nenhuma
discussão. Nesse sentido, é preciso observar como essa sucessão de música,
propaganda e notícia ilustra o caráter fragmentário dos mdcm, principalmente
o rádio e a televisão (esta, por sinal, profundamente criticada por Adorno).
Os meios tecnológicos tornaram possível reproduzir obras de arte em escala
industrial. Para os autores, essa produção em série (por exemplo, os discos
de música clássica, as reproduções de pinturas, a música erudita como pano
de fundo de filmes de cinema) não democratizou a arte. Simplesmente, banalizou-
a, descaracterizou-a, fazendo com que o público perdesse o senso crítico
e se tornasse um consumidor passivo de todas as mercadorias anunciadas pelos
mdcm. Nesse caso, o fato de um operário assobiar, durante o seu trabalho,
um trecho da ópera que ouviu no rádio não significaria que ele estaria compreendendo
a profundidade daquela obra de arte, mas apenas que ele a memorizou,
como faria com qualquer canção sertaneja, romântica, ou mesmo um
jingle que ouvisse no mesmo rádio.
Para Adorno, a indústria cultural tem como único objetivo a dependência
e a alienação dos homens. Ao maquiar o mundo nos anúncios que veicula, ela
acaba seduzindo as massas para o consumo das mercadorias culturais, a fim de que elas se esqueçam da exploração que sofrem nas relações de produção.
A indústria cultural estimularia, portanto, o imobilismo.
Ao contrário de Adorno e Horkheimer, Marshall McLuhan (1911-1980)
via a atuação dos mdcm de maneira otimista. Estudando principalmente a televisão,
o autor acreditava que ela poderia aproximar os homens, diminuindo
as distâncias não apenas territoriais como sociais entre eles. O mundo iria transformar-se, então, numa espécie de “aldeia global”, expressão que acabou ficando
clássica entre os teóricos da comunicação.
O crítico Umberto Eco, por sua vez, faz uma distinção polêmica entre os
autores dedicados ao estudo da indústria cultural. Segundo ele, esses autores
dividem-se entre “apocalípticos” (aqueles que criticam os meios de comunicação
de massa) e “integrados” (aqueles que os elogiam). Entre os motivos para
criticar os mdcm, segundo os “apocalípticos”, estariam:
· a veiculação que eles realizam de uma cultura homogênea (que
desconsidera diferenças culturais e padroniza o público);
· o seu desestímulo à sensibilidade;
· o estímulo publicitário (criando, junto ao público, novas necessidades de
consumo); a sua definição como simples lazer e entretenimento, desestimulando o
público a pensar, tornando-o passivo e conformista.
Nesse sentido, os mdcm seriam usados para fins de controle e manutenção
da sociedade capitalista.
Entre os motivos para elogiar os mdcm, apontados pelos “integrados”,
estariam:
· serem os mdcm a única fonte de informação possível a uma parcela da
população que sempre esteve distante das informações;
· as informações veiculadas por eles poderem contribuir para a própria
formação intelectual do público;
· a padronização de gosto gerada por eles funcionar como um elemento
unificador das sensibilidades dos diferentes grupos.
Nesse sentido, os mdcm não seriam característicos apenas da sociedade
capitalista, mas de toda sociedade democrática.
Eco irá criticar as duas concepções. Os “apocalípticos” estariam equivocados
por considerarem a cultura de massa ruim simplesmente por seu caráter
industrial. Para Eco, não se pode ignorar que a sociedade atual é industrial e
que as questões culturais têm que ser pensadas a partir dessa constatação. Os
“integrados”, por sua vez, estariam errados por esquecerem que normalmente
a cultura de massa é produzida por grupos de poder econômico com fins
lucrativos, o que significa a tentativa de manutenção dos interesses desses
grupos através dos próprios mdcm. Além disso, não é pelo fato de veicular
produtos culturais que a cultura de massa deva ser considerada naturalmente
boa, como querem os “integrados”.
493
Anexo
Eco acredita que não se pode pensar a sociedade moderna sem os mdcm.
Nesse sentido, sua preocupação é descobrir que tipo de ação cultural deve ser
estimulado para que os mdcm realmente veiculem valores culturais.
Nesse sentido, o papel dos intelectuais será fundamental, pois eles é que
irão fiscalizar e exigir que isso aconteça.
Outro autor também ligado à Escola de Frankfurt, mas com uma concepção
diferente do papel da indústria cultural, é Walter Benjamin (1886-1940).
Para ele, a revolução tecnológica do final do século XIX e início do século XX
não acabou com a cultura erudita, como pensavam Adorno e Horkheimer, mas
alterou o papel da arte e da cultura. Os mdcm e suas novas formas de produção
cultural propiciaram mudanças na percepção e na assimilação do público
consumidor, podendo, inclusive, gerar novas formas de mobilização e contestação
por parte desse público.
Para Benjamin, a possibilidade de reprodução técnica das obras de arte
retirou delas o seu caráter único e mágico (o que ele chama de sua “aura”).
Em compensação, possibilitou que elas saíssem dos palácios e museus e fossem
conhecidas por um número infinito de pessoas. Por exemplo, a reprodução
fotográfica permitiu que qualquer pessoa pudesse ter em sua sala as clássicas
Monalisa e Santa ceia, de Leonardo da Vinci; a reprodução fonográfica
fez com que muito mais pessoas pudessem escutar (e quantas vezes quisessem)
uma sinfonia de Mozart.
O impacto que a indústria cultural moderna pode provocar no público
consumidor não seria, portanto, necessariamente negativo, podendo, ao contrário,
contribuir para a emancipação desse público e para a melhoria da sociedade,
uma vez que ampliaria o seu horizonte de conhecimento.
Muitos críticos consideram a visão de Adorno e Horkheimer sobre a indústria
cultural conservadora. Segundo eles, a posição desses autores, ao dizerem
que a indústria cultural banalizaria a cultura erudita (que eles denominavam
“alta cultura”), seria de valorizar a cultura burguesa. E não apenas isso,
seria também de depreciar a cultura popular, que, segundo eles, ficaria ainda
mais simplificada no âmbito da indústria cultural, e a própria capacidade crítica
do público, considerado mero consumidor de mercadorias culturais, produzidas
industrialmente.
Essas diferentes visões sobre a indústria cultural, expostas de maneira
simplificada, poderão servir como elementos para refletirmos sobre a questão
da indústria cultural no Brasil.
Nelson Dácio Tomazi, Iniciação à Sociologia, São Paulo, Atual, 1993
O surgimento da Sociologia
Everaldo Lorensetti
Você é um privilegiado!
eitor: – Como assim, privilegiado?
O livro: – É, privilegiado! Você é um
deles!
Na sociedade, há pessoas privilegiadas.
Um deles, por exemplo, pode
ser aquele que tem o poder de
governar e de conduzir os rumos da
sociedade, o que muitas vezes pode
não ser da maneira mais justa para
todos. Outro exemplo...
Leitor: – Um outro...?
O livro: – Você mesmo é um, caro leitor!
Leitor: – Mas, eu?! Como?
O livro: – Simples! Seu privilégio está no fato do que você vai
adquirir agora: conhecimento! Você poderá avançar
no entendimento de como funciona a sociedade em
que você vive, conhecer como trabalham os demais
privilegiados (a elite social) e aumentar sua autonomia
de reflexão e de ação diante dos fatos que lhe cercam.
Sigamos adiante?
Mas o que é essa AUTONOMIA de que estamos falando?
Vamos lá! Vamos descobrir! Você vai entender o que estamos dizendo,
passo a passo.
Essa autonomia é quanto à sua maneira de pensar e de agir frente a
diversas situações. Muitas pessoas não sabem (e não se preocupam em
saber) como e por que determinadas coisas mexem com suas vidas.
Vamos pensar num exemplo bem simples para você entender: você
já viu uma TV que não “pega” direito? O que pode ser feito para se
resolver o problema do sinal?
Colocar palha-de-aço na antena resolveria?
Essa atitude, de pôr a palha-de-aço na antena, falando de tempos
passados, era algo muito mais comum do que hoje com as antenas parabólicas
e TVs a cabo, o que não significa que ninguém mais o faça.
Mas a palha-de-aço pode até resolver o problema, consideravelmente.
Outras vezes, porém, ela não será suficiente para acabar com o
defeito. Dependendo do sinal que a TV esteja recebendo.
O que seria a palha-de-aço?
Palha-de-aço = uma espécie de Senso Comum.
No caso da TV, um técnico em eletrônica resolveria melhor o problema
do sinal porque ele tem um conhecimento mais apurado daquilo
que opera o funcionamento da televisão. Provavelmente ele iria dar
uma boa gargalhada ao ver o “Bombril” pendurado na ponta da antena,
pois ele sabe que aquilo pode ser apenas um “remendo no rasgo”,
ainda que em alguns casos resolva, entende?
Resumindo: Então, o que seria um Senso Comum?
Poderíamos dizer que é uma resposta ou solução simples para o
cotidiano, geralmente pouco elaborada e sem um conhecimento mais
profundo, diga-se, científico.
O teólogo brasileiro e Doutor em Filosofia, Rubem Alves, em seu livro
Filosofia da Ciência, considera o senso comum como sendo aquilo
que não é ciência. De outra maneira, seria dizer que o Bombril na antena
da TV não é algo científico, mas sim um “eu acho que funciona”
para o dia-a-dia das pessoas.
Mas existe uma lógica em pôr a palha-de-aço na antena. As pessoas
só não sabem qual é. E é por esse motivo, também, que Rubem Alves
diz que a ciência, na verdade, é um refinamento, ou melhoramento,
do senso comum.
O senso comum e a ciência nos dão respostas, ou inventam soluções
práticas para nossos problemas. A diferença é que a ciência é um
conhecimento mais elaborado.
“Eu acho que...” Fique sabendo!
Muitas vezes quando alguém começar
uma resposta com as palavras
“eu acho que...”, tal resposta pode
não chegar no centro real do problema
a ser entendido ou resolvido. O
que não significa, porém, que ela deva
ser rejeitada. Ela só precisa ser refinada.
Por exemplo, se alguém nos perguntasse
o motivo que leva a economia
de um país oscilar, nós poderíamos
dar uma resposta certeira, com
demonstrações, inclusive, mas também
poderíamos dizer apenas: “eu
acho que...”.
A exemplo da economia, existem
muitas outras coisas que acontecem
na sociedade que nos atingem diretamente.
E para todas essas coisas seria
muito bom que tivéssemos curiosidade
para saber se aquilo que é mostrado
é realmente como é, entende?
E a Sociologia? Como vai aparecer
nessa conversa?
Para muitas pessoas, passar debaixo de uma escada traz azar. Isso também pode ser um exemplo de senso comum.
Contribuindo para que possamos entender um pouco mais o lugar onde
vivemos!
Veja, como já falamos, o senso comum não deve ser rejeitado.
O que estamos propondo é que você pode ir além desse conhecimento
comum, neste caso, sobre a sociedade.
Uma outra coisa que deve ser desmitificada é o termo cientista.
Confirmamos o pensamento de Rubem Alves quando diz que um cientista
não é uma pessoa que pensa melhor do que os outros. Rubem Alves
nos fala que a tarefa de refletir e de entender os porquês das coisas
cabe a todos nós, e que a idéia de que não precisamos pensar, porque
existem pessoas “melhores” para isto, é furada.
Avançar um pouco mais em relação a um conhecimento elaborado e investigativo vai lhe trazer um entendimento mais claro sobre como
funciona a sociedade, dentre outras coisas.
Além do fato de que você terá maior autonomia para CONCORDAR
OU DISCORDAR POR SI PRÓPRIO sobre as questões que você
vive na sociedade.
Essa é a independência que queremos que você tenha: A DE REFLEXÃO.
E o que é ser alienado?
Veja: se não tivermos nossa independência de pensamento
e ação, ou seja, se não conseguimos refletir sobre
aquilo que vemos e ouvimos, ou se concordamos com tudo
o que acontece, então podemos estar vivendo de forma
alienada.
Segundo a filósofa brasileira Marilena Chauí, a alienação
acontece quando o homem não se vê como sujeito (criador)
da história e, nela, capaz de produzir obras.
Para o homem alienado, e segundo esta mesma visão, a
história e as obras produzidas nela são fatos estranhos e externos.
E, sendo estranhos, tal homem não os pode controlar, ficando
numa posição de dominado. Já o conhecimento pode nos fazer transformadores
da história, e não apenas espectadores dela.
Mais à frente retomaremos essa discussão sobre a alienação e a existência
de elites e o faremos com mais recursos para a nossa reflexão.
Conhecer e entender
(sobre a Sociologia) é preciso!
A Sociologia não é a redentora ou solucionadora dos males sociais,
ou dos problemas intelectuais das pessoas. Ela surge como uma ciência
que vai fornecer uma nova visão sobre a sociedade, que não é absoluta,
ou a única a demonstrar a “verdade”.
Sua contribuição está no fato de nos dar referenciais para refletirmos
sobre as sociedades.
A ”Gênesis Sociológica”:
É importante...
Nesse início de trabalho, buscaremos conhecer como a Sociologia
surgiu, para depois sabermos como é que ela pode nos ajudar a entender
a sociedade, bem como os problemas levantados pela atividade
acima. Vamos fazer um passeio pela história para encontrarmos suas
bases. Acompanhe:
Como tudo começou!
Apesar da ciência sociológica ser considerada nova, pois ela se consolidou por volta do século XIX, a angústia de se entender as sociedades,
por sua vez, não é tão nova assim. Se olharmos para a Grécia Antiga, vamos ver que lá já havia o desejo de se entender a sociedade. No século V a.C, havia uma corrente filosófica, chamada sofista, que começava a dar mais atenção para os problemas sociais e políticos da época. Porém, não foram os gregos os criadores da Sociologia. Mas foram os gregos que iniciaram o pensamento crítico filosófico. Eles criaram a Filosofia (que significa amor ao conhecimento) e que, por sua vez, foi um impulso para o surgimento daquilo que chamamos, hoje, de ciência, a qual se consolidaria a partir dos séculos XVI e XVII, sendo uma forma de interpretação dos acontecimentos da sociedade mais distanciada das explicações míticas. Foram com os filósofos gregos Platão (427-347 a.C) e Aristóteles (384-322 a.C), que surgiram os primeiros passos dos trabalhos mais reflexivos sobre a sociedade. Platão foi defensor de uma concepção idealista e acreditava que o aspecto material do mundo seria um tipo de fruto imperfeito das idéias universais, as quais existem por si mesmas. Aristóteles já mencionava que o homem era um ser que, necessariamente, nasce para
estar vivendo em conjunto, isto é, em sociedade.
No seu livro chamado Política, no qual consta um estudo dos diferentes sistemas de governo existentes, percebe se o seu interesse em entender a sociedade.
na Idade Média...
Séculos mais tarde, no período chamado de Idade Média (que vai do século V ao XV, mais exatamente entre os anos 476 a 1453 a.C.), houve, segundo os renascentistas (que vamos conhecer mais à frente), um período de “trevas” quanto à maneira de ver o mundo. Segundo eles, havia um prevalecer da fé, onde o campo mítico e religioso tendia a ser a explicação mais viável para o mundo. Na Europa Medieval, esse predomínio foi pela igreja Católica. Tal predomínio da fé, de certo modo, e segundo os humanistas renascentistas, asfixiava as tentativas de explicações mais especulativas e racionais (científicas) sobre a sociedade. Não cumprir uma regra ou lei estabelecida pela sociedade, poderia ser entendido como um pecado, tamanha era a mistura entre a vida cotidiana e a esfera sobrenatural.
É claro que se olharmos a Idade Média somente pela ótica dos renascentistas ela pode ficar com uma “cara meio tenebrosa”. Na verdade, ela também foi um período muito rico para a história da humanidade, importante, inclusive, para a formação da nossa casa, o mundo ocidental. Vale a pena conhecermos um pouco mais sobre essa história. E, na continuidade da história...
Tudo caminhava para o uso da razão O predomínio da fé durou até pelo menos o século XV. Mas já no século XIV começava a acontecer uma renovação cultural. Era o início do período conhecido por Renascimento.
Os renascentistas, com base naquilo que os gregos começaram, isto é, a questionar o mundo de maneira reflexiva (como já contamos anteriormente),
rejeitavam tudo aquilo que seria parte da cultura medieval, presa aos moldes da igreja, no caso, a Católica. O renascimento espalhou-se por muitas partes da Europa e influenciava a arte, a ciência, a literatura e a filosofia, defendendo, sempre, o espírito crítico. Nesse tempo, começaram a aparecer homens que, de forma mais realista, começavam a investigar a sociedade. A exemplo disso temos Nicolau Maquiavel (1469-1527) que, em sua obra intitulada de O Príncipe, faz uma espécie de manual de guerra para Lorenzode Médici. Ali comenta como o governante pode manipular os meios
para a finalidade de conquistar e manter o poder em suas mãos.
Obras como esta davam um novo olhar para a sociedade, o olhar
de que pela razão os homens poderiam dominar a sociedade, longe
das influências divinas.
Era a doutrina do antropocentrismo ganhando força. O homem
passava a ser visto como o centro de tudo, inclusive do poder de inventar
e transformar o mundo pelas suas ações.
Além de Maquiavel, outros autores renascentistas, como Francis Bacon
(1561-1626), filósofo e criador do método científico conhecido por
experimental, ajudavam a dar impulso aos tempos de domínio da ciência
que se iniciavam.
Não perdendo de vista...
Estamos contando tudo isso para que você perceba que nem sempre as pessoas puderam contar com a ciência para entender o mundo, sobretudo o social, que é o queremos compreender. Dessa maneira, muitas pessoas, no passado, ficaram “presas” às explicações que poderiam ser falsas sobre a realidade, como é o caso das explicações míticas.
O Iluminismo
Já no século XVIII, houve um momento, na Europa, chamado de Iluminismo, que começou na Inglaterra e França, mas que posteriormente espalhou-se por todo o continente, em que a idéia de se valorizar a ciência e a racionalidade sobre a vida da sociedade tornou-se ainda mais forte.
Uma característica das idéias do Iluminismo era o combate ao Estado absoluto, ou absolutismo, que começou a surgir na Europa ainda no final da Idade Média, no século XV, em que o rei concentrava todo o poder em suas mãos e governava sendo considerado um representante divino na terra, uma voz de Deus, a qual até a igreja, não raramente, se sujeitava.
Com a ciência ganhando força, era, digamos, inviável o fato de voltar
a pensar a vida e a organização social por vias que não fossem científicas.
Como por exemplo, imaginar os governantes como sendo representantes
sobrenaturais. Nesse período, a continuada consolidação da reflexão sistemática sobre a sociedade foi ajudada por autores como Voltaire (1694-1778), filósofo que defendia a razão e combatia o fanatismo religioso; Jean- Jacques Rousseau (1712-1778), que estudou sobre as causas das desigualdades sociais e defendia a democracia; Montesquieu (1689-1755),
que criticava o absolutismo, e defendia a criação de poderes separados
(legislativo, judiciários e executivo), os quais dariam maior equilíbrio
ao Estado, uma vez que não haveria centralidade de poder na mão do governante.
Portanto, com a contribuição Iluminista...
A partir das teorias sobre a sociedade que no período Iluminista surgiram, é que começa a ser impulsionada, ou preparada, a idéia da existência de uma ciência que pudesse ajudar a interpretar os movimentos da própria sociedade.
CONSOLIDAÇÃO DO CAPITALISMO E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL!
Estamos mudando de assunto?
Mudando em parte, porém não estamos deixando de falar do surgimento
da Sociologia. Há outros elementos que a motivaram surgir.
As transformações na sociedade européia não estavam ocorrendo somente no campo das idéias, como era o caso da consolidação da ciência como ferramenta de interpretação do mundo, que vimos até aqui.
A também consolidação do sistema capitalista, culminada pela Revolução
Industrial que ocorreu em meados do século XVIII, na Inglaterra, gerava grandes alterações no estilo de vida das pessoas, sobretudo nas das que viviam no campo ou do artesanato. Estes temas despertavam o interesse de críticos da época.
Dessa maneira, quando a Sociologia iniciou os seus trabalhos, ela o fez com base em pensadores que viram os problemas sociais ocasionados a partir da crise gerada pelos fatos acima mencionados.
Acompanhe:
Recorrendo à História para entendermos...
Podemos dizer que o início do sistema capitalista se deu na chamada Baixa Idade Média, entre os séculos IX e XV, na Europa Ocidental.
A partir do século XI, com as “cruzadas” realizadas pela Igreja Católica,
para conquistar Jerusalém que estava dominada pelos muçulmanos, um canal de circulação de riquezas na Europa foi aberto. O contato cultural e o comércio do ocidente com o oriente europeu foram retomados via Mar Mediterrâneo. Com a movimentação de pessoas e riquezas houve, na Europa Ocidental, o surgimento de núcleos urbanos, conhecidos por burgos. Destes, ressurgiram as cidades, pois existiam poucas naquele tempo. As chamadas corporações de ofício, que eram uma espécie de associação que organizava as atividades artesanais para ter acordo entre os preços de venda e qualidade do produto, por exemplo, começaram a aparecer a fim de regular o trabalho dos artesões que vinham para as cidades exercer sua profissão. Aqui vemos que a idéia do lucro se fortalecia.
Mais tarde, os europeus...
...começaram a explorar o comércio em termos mundiais, principalmente
depois dos séculos XV e XVI e das chamadas Grandes Navegações. Por exemplo, com o descobrimento da América, muita riqueza daqui era levada à Europa para a criação de mercadorias que seriam vendidas nesse mercado mundial que estava surgindo. A idéia de uma produção em série de mercadorias começava a surgir.
As antigas corporações de ofícios foram transformadas pelos comerciantes
da época em manufatura. O trabalho manufatureiro acontecia com vários artesãos, em locais separados e dirigidos por um comerciante que dava a eles a matéria-prima e as ferramentas. No final do trabalho encomendado, os artesões recebiam um pagamento acertado com o comerciante.
Mais à frente ainda, os comerciantes (futuros empresários capitalistas)
pensaram que seria melhor reunir todos esses artesãos num só lugar, pois assim poderiam ver o que eles estavam produzindo. Além de cuidar da qualidade do produto, o controle sobre a matéria-prima e ritmo da produção poderia ser maior. Foi então que surgiu a idéia da fábrica...
Um lugar com uma produção mais organizada, com a divisão de funções, onde o artesão passava a operar apenas parte da produção. Desse ponto, para a implantação das máquinas movidas a vapor, restava
somente o tempo da invenção das mesmas. Quando o inventor escocês James Watt (1736-1819) conseguiu patentear a máquina a vapor, em abril de 1784, ela veio dar grande impulso à industrialização que se instalava, aumentando a produção, diminuindo os gastos com mão-de-obra e aumentando o acúmulo de capital.
Veja o quadro que se montava...
O sistema feudal da Europa Ocidental, estava sendo superado. Ele não conseguiria suprir as necessidades dos novos mercados que se abriam. O sistema capitalista, com base na propriedade privada e no lucro, isto é, na acumulação de capital, estava sendo consolidado.
A partir da Revolução Industrial (século XVIII), as cidades da Europa
Ocidental começavam a se transformar em grandes centros urbanos comerciais e, posteriormente, industriais. Muitas delas “inchadas” por desempregados. O estilo de vida das pessoas estava se transformando – para alguns de forma violenta e radical – como era o caso de muitos camponeses que eram expulsos pelos senhores das terras que as cercavam para criar ovelhas e fornecer lã às fábricas de tecidos.
Já no caso dos artesãos, esses “perdiam” sua qualificação profissional e o controle sobre o que produziam, ou seja, de profissionais, passavam a “não ter profissão”, pois a indústria era quem ditava que tipo de profissional precisava ser. Não importava se fossem grandes artesãos, só precisariam aprender a operar a máquina da fábrica. Se fosse Hoje, usaríamos o termo aprender a “apertar botões”. Dessa maneira, como não tinham capital para ter uma produção autônoma e competir com a fábrica, submetiam-se ao trabalho assalariado.
Sistema feudal:
Sistema social que existiu durante a Idade Média. Com o
desaparecimento das cidades, o comércio também desaparecia.
As bases econômicas se centraram no campo, nos feudos. Os feudos eram
grandes áreas de terras pertencentes a um senhor. Dentro deles havia as colônias de servos que lavravam a terra. Parte da produção era destinada
ao senhor da terra, e parte era para os servos.
Novas e grandes invenções estavam sendo realizadas no campo tecnológico, como as próprias máquinas a vapor das indústrias. O comércio mundial estava aumentando cada vez mais. O mundo estava “encolhendo”, em termos de fronteiras comerciais e ficando “europeizado”. E em meio a isto, duas classes distintas emergiam: a composta pelos empresários e banqueiros, chamada de classe burguesa, e a classe assalariada, ou proletária.
A classe burguesa é aquela que ao longo do tempo veio acumulando
capital com o comércio e reteve os meios de produção em suas mãos, isto é, as ferramentas, os equipamentos fabris, o espaço da fábrica, etc., bem como o poder político. Já a classe proletária, sem capital e expropriada dos meios de produção, tornava-se fornecedora de mão-de-obra aos donos das fábricas.
Agora perceba comigo:
É em meio a todas essas transformações que ocorriam na Europa Ocidental, isto é, pela consolidação do sistema capitalista, a valorização da ciência contrapondo as explicações míticas sobre o mundo, a abertura de mercados mundiais, o surgimento de novas classes na sociedade e a crise da classe proletária versus enriquecimento da classe burguesa, é que a Sociologia começa a ser pensada como sendo uma ciência para dar respostas mais elaboradas sobre o caos social. A Sociologia e suas teorias, as quais vamos ver a seguir, se constituem ferramentas de reflexão sobre a sociedade industrial e científica que surgia. Vamos ver como elas refletem para entendermos os problemas sociais e ajudar a encontrar soluções para os mesmos.
Burguesia:
As pessoas que moravam
nos núcleos urbanos (burgos),
eram identificadas como
sendo os burgueses. Mas
com o passar dos tempos,
essa denominação ficou apenas
para os que haviam enriquecido
com o comércio, sobretudo
os comerciantes e
banqueiros
Referências:
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência. São Paulo: Ars Poética, 1996.
AZEVED , Fernando de. Princípios de Sociologia: pequena introdução ao estudo
da sociologia geral. 11ª ed. – São Paulo: Duas Cidades, 1973.
CASTRO, Ana Maria de, DIAS, Edmundo Fernandes. Contexto histórico do
aparecimento da sociologia. In.: Introdução ao pensamento sociológico. São
Paulo: Centauro, 2001.
CHAUI, Marilena de Souza. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1994.
MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1998.
Você é um privilegiado!
eitor: – Como assim, privilegiado?
O livro: – É, privilegiado! Você é um
deles!
Na sociedade, há pessoas privilegiadas.
Um deles, por exemplo, pode
ser aquele que tem o poder de
governar e de conduzir os rumos da
sociedade, o que muitas vezes pode
não ser da maneira mais justa para
todos. Outro exemplo...
Leitor: – Um outro...?
O livro: – Você mesmo é um, caro leitor!
Leitor: – Mas, eu?! Como?
O livro: – Simples! Seu privilégio está no fato do que você vai
adquirir agora: conhecimento! Você poderá avançar
no entendimento de como funciona a sociedade em
que você vive, conhecer como trabalham os demais
privilegiados (a elite social) e aumentar sua autonomia
de reflexão e de ação diante dos fatos que lhe cercam.
Sigamos adiante?
Mas o que é essa AUTONOMIA de que estamos falando?
Vamos lá! Vamos descobrir! Você vai entender o que estamos dizendo,
passo a passo.
Essa autonomia é quanto à sua maneira de pensar e de agir frente a
diversas situações. Muitas pessoas não sabem (e não se preocupam em
saber) como e por que determinadas coisas mexem com suas vidas.
Vamos pensar num exemplo bem simples para você entender: você
já viu uma TV que não “pega” direito? O que pode ser feito para se
resolver o problema do sinal?
Colocar palha-de-aço na antena resolveria?
Essa atitude, de pôr a palha-de-aço na antena, falando de tempos
passados, era algo muito mais comum do que hoje com as antenas parabólicas
e TVs a cabo, o que não significa que ninguém mais o faça.
Mas a palha-de-aço pode até resolver o problema, consideravelmente.
Outras vezes, porém, ela não será suficiente para acabar com o
defeito. Dependendo do sinal que a TV esteja recebendo.
O que seria a palha-de-aço?
Palha-de-aço = uma espécie de Senso Comum.
No caso da TV, um técnico em eletrônica resolveria melhor o problema
do sinal porque ele tem um conhecimento mais apurado daquilo
que opera o funcionamento da televisão. Provavelmente ele iria dar
uma boa gargalhada ao ver o “Bombril” pendurado na ponta da antena,
pois ele sabe que aquilo pode ser apenas um “remendo no rasgo”,
ainda que em alguns casos resolva, entende?
Resumindo: Então, o que seria um Senso Comum?
Poderíamos dizer que é uma resposta ou solução simples para o
cotidiano, geralmente pouco elaborada e sem um conhecimento mais
profundo, diga-se, científico.
O teólogo brasileiro e Doutor em Filosofia, Rubem Alves, em seu livro
Filosofia da Ciência, considera o senso comum como sendo aquilo
que não é ciência. De outra maneira, seria dizer que o Bombril na antena
da TV não é algo científico, mas sim um “eu acho que funciona”
para o dia-a-dia das pessoas.
Mas existe uma lógica em pôr a palha-de-aço na antena. As pessoas
só não sabem qual é. E é por esse motivo, também, que Rubem Alves
diz que a ciência, na verdade, é um refinamento, ou melhoramento,
do senso comum.
O senso comum e a ciência nos dão respostas, ou inventam soluções
práticas para nossos problemas. A diferença é que a ciência é um
conhecimento mais elaborado.
“Eu acho que...” Fique sabendo!
Muitas vezes quando alguém começar
uma resposta com as palavras
“eu acho que...”, tal resposta pode
não chegar no centro real do problema
a ser entendido ou resolvido. O
que não significa, porém, que ela deva
ser rejeitada. Ela só precisa ser refinada.
Por exemplo, se alguém nos perguntasse
o motivo que leva a economia
de um país oscilar, nós poderíamos
dar uma resposta certeira, com
demonstrações, inclusive, mas também
poderíamos dizer apenas: “eu
acho que...”.
A exemplo da economia, existem
muitas outras coisas que acontecem
na sociedade que nos atingem diretamente.
E para todas essas coisas seria
muito bom que tivéssemos curiosidade
para saber se aquilo que é mostrado
é realmente como é, entende?
E a Sociologia? Como vai aparecer
nessa conversa?
Para muitas pessoas, passar debaixo de uma escada traz azar. Isso também pode ser um exemplo de senso comum.
Contribuindo para que possamos entender um pouco mais o lugar onde
vivemos!
Veja, como já falamos, o senso comum não deve ser rejeitado.
O que estamos propondo é que você pode ir além desse conhecimento
comum, neste caso, sobre a sociedade.
Uma outra coisa que deve ser desmitificada é o termo cientista.
Confirmamos o pensamento de Rubem Alves quando diz que um cientista
não é uma pessoa que pensa melhor do que os outros. Rubem Alves
nos fala que a tarefa de refletir e de entender os porquês das coisas
cabe a todos nós, e que a idéia de que não precisamos pensar, porque
existem pessoas “melhores” para isto, é furada.
Avançar um pouco mais em relação a um conhecimento elaborado e investigativo vai lhe trazer um entendimento mais claro sobre como
funciona a sociedade, dentre outras coisas.
Além do fato de que você terá maior autonomia para CONCORDAR
OU DISCORDAR POR SI PRÓPRIO sobre as questões que você
vive na sociedade.
Essa é a independência que queremos que você tenha: A DE REFLEXÃO.
E o que é ser alienado?
Veja: se não tivermos nossa independência de pensamento
e ação, ou seja, se não conseguimos refletir sobre
aquilo que vemos e ouvimos, ou se concordamos com tudo
o que acontece, então podemos estar vivendo de forma
alienada.
Segundo a filósofa brasileira Marilena Chauí, a alienação
acontece quando o homem não se vê como sujeito (criador)
da história e, nela, capaz de produzir obras.
Para o homem alienado, e segundo esta mesma visão, a
história e as obras produzidas nela são fatos estranhos e externos.
E, sendo estranhos, tal homem não os pode controlar, ficando
numa posição de dominado. Já o conhecimento pode nos fazer transformadores
da história, e não apenas espectadores dela.
Mais à frente retomaremos essa discussão sobre a alienação e a existência
de elites e o faremos com mais recursos para a nossa reflexão.
Conhecer e entender
(sobre a Sociologia) é preciso!
A Sociologia não é a redentora ou solucionadora dos males sociais,
ou dos problemas intelectuais das pessoas. Ela surge como uma ciência
que vai fornecer uma nova visão sobre a sociedade, que não é absoluta,
ou a única a demonstrar a “verdade”.
Sua contribuição está no fato de nos dar referenciais para refletirmos
sobre as sociedades.
A ”Gênesis Sociológica”:
É importante...
Nesse início de trabalho, buscaremos conhecer como a Sociologia
surgiu, para depois sabermos como é que ela pode nos ajudar a entender
a sociedade, bem como os problemas levantados pela atividade
acima. Vamos fazer um passeio pela história para encontrarmos suas
bases. Acompanhe:
Como tudo começou!
Apesar da ciência sociológica ser considerada nova, pois ela se consolidou por volta do século XIX, a angústia de se entender as sociedades,
por sua vez, não é tão nova assim. Se olharmos para a Grécia Antiga, vamos ver que lá já havia o desejo de se entender a sociedade. No século V a.C, havia uma corrente filosófica, chamada sofista, que começava a dar mais atenção para os problemas sociais e políticos da época. Porém, não foram os gregos os criadores da Sociologia. Mas foram os gregos que iniciaram o pensamento crítico filosófico. Eles criaram a Filosofia (que significa amor ao conhecimento) e que, por sua vez, foi um impulso para o surgimento daquilo que chamamos, hoje, de ciência, a qual se consolidaria a partir dos séculos XVI e XVII, sendo uma forma de interpretação dos acontecimentos da sociedade mais distanciada das explicações míticas. Foram com os filósofos gregos Platão (427-347 a.C) e Aristóteles (384-322 a.C), que surgiram os primeiros passos dos trabalhos mais reflexivos sobre a sociedade. Platão foi defensor de uma concepção idealista e acreditava que o aspecto material do mundo seria um tipo de fruto imperfeito das idéias universais, as quais existem por si mesmas. Aristóteles já mencionava que o homem era um ser que, necessariamente, nasce para
estar vivendo em conjunto, isto é, em sociedade.
No seu livro chamado Política, no qual consta um estudo dos diferentes sistemas de governo existentes, percebe se o seu interesse em entender a sociedade.
na Idade Média...
Séculos mais tarde, no período chamado de Idade Média (que vai do século V ao XV, mais exatamente entre os anos 476 a 1453 a.C.), houve, segundo os renascentistas (que vamos conhecer mais à frente), um período de “trevas” quanto à maneira de ver o mundo. Segundo eles, havia um prevalecer da fé, onde o campo mítico e religioso tendia a ser a explicação mais viável para o mundo. Na Europa Medieval, esse predomínio foi pela igreja Católica. Tal predomínio da fé, de certo modo, e segundo os humanistas renascentistas, asfixiava as tentativas de explicações mais especulativas e racionais (científicas) sobre a sociedade. Não cumprir uma regra ou lei estabelecida pela sociedade, poderia ser entendido como um pecado, tamanha era a mistura entre a vida cotidiana e a esfera sobrenatural.
É claro que se olharmos a Idade Média somente pela ótica dos renascentistas ela pode ficar com uma “cara meio tenebrosa”. Na verdade, ela também foi um período muito rico para a história da humanidade, importante, inclusive, para a formação da nossa casa, o mundo ocidental. Vale a pena conhecermos um pouco mais sobre essa história. E, na continuidade da história...
Tudo caminhava para o uso da razão O predomínio da fé durou até pelo menos o século XV. Mas já no século XIV começava a acontecer uma renovação cultural. Era o início do período conhecido por Renascimento.
Os renascentistas, com base naquilo que os gregos começaram, isto é, a questionar o mundo de maneira reflexiva (como já contamos anteriormente),
rejeitavam tudo aquilo que seria parte da cultura medieval, presa aos moldes da igreja, no caso, a Católica. O renascimento espalhou-se por muitas partes da Europa e influenciava a arte, a ciência, a literatura e a filosofia, defendendo, sempre, o espírito crítico. Nesse tempo, começaram a aparecer homens que, de forma mais realista, começavam a investigar a sociedade. A exemplo disso temos Nicolau Maquiavel (1469-1527) que, em sua obra intitulada de O Príncipe, faz uma espécie de manual de guerra para Lorenzode Médici. Ali comenta como o governante pode manipular os meios
para a finalidade de conquistar e manter o poder em suas mãos.
Obras como esta davam um novo olhar para a sociedade, o olhar
de que pela razão os homens poderiam dominar a sociedade, longe
das influências divinas.
Era a doutrina do antropocentrismo ganhando força. O homem
passava a ser visto como o centro de tudo, inclusive do poder de inventar
e transformar o mundo pelas suas ações.
Além de Maquiavel, outros autores renascentistas, como Francis Bacon
(1561-1626), filósofo e criador do método científico conhecido por
experimental, ajudavam a dar impulso aos tempos de domínio da ciência
que se iniciavam.
Não perdendo de vista...
Estamos contando tudo isso para que você perceba que nem sempre as pessoas puderam contar com a ciência para entender o mundo, sobretudo o social, que é o queremos compreender. Dessa maneira, muitas pessoas, no passado, ficaram “presas” às explicações que poderiam ser falsas sobre a realidade, como é o caso das explicações míticas.
O Iluminismo
Já no século XVIII, houve um momento, na Europa, chamado de Iluminismo, que começou na Inglaterra e França, mas que posteriormente espalhou-se por todo o continente, em que a idéia de se valorizar a ciência e a racionalidade sobre a vida da sociedade tornou-se ainda mais forte.
Uma característica das idéias do Iluminismo era o combate ao Estado absoluto, ou absolutismo, que começou a surgir na Europa ainda no final da Idade Média, no século XV, em que o rei concentrava todo o poder em suas mãos e governava sendo considerado um representante divino na terra, uma voz de Deus, a qual até a igreja, não raramente, se sujeitava.
Com a ciência ganhando força, era, digamos, inviável o fato de voltar
a pensar a vida e a organização social por vias que não fossem científicas.
Como por exemplo, imaginar os governantes como sendo representantes
sobrenaturais. Nesse período, a continuada consolidação da reflexão sistemática sobre a sociedade foi ajudada por autores como Voltaire (1694-1778), filósofo que defendia a razão e combatia o fanatismo religioso; Jean- Jacques Rousseau (1712-1778), que estudou sobre as causas das desigualdades sociais e defendia a democracia; Montesquieu (1689-1755),
que criticava o absolutismo, e defendia a criação de poderes separados
(legislativo, judiciários e executivo), os quais dariam maior equilíbrio
ao Estado, uma vez que não haveria centralidade de poder na mão do governante.
Portanto, com a contribuição Iluminista...
A partir das teorias sobre a sociedade que no período Iluminista surgiram, é que começa a ser impulsionada, ou preparada, a idéia da existência de uma ciência que pudesse ajudar a interpretar os movimentos da própria sociedade.
CONSOLIDAÇÃO DO CAPITALISMO E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL!
Estamos mudando de assunto?
Mudando em parte, porém não estamos deixando de falar do surgimento
da Sociologia. Há outros elementos que a motivaram surgir.
As transformações na sociedade européia não estavam ocorrendo somente no campo das idéias, como era o caso da consolidação da ciência como ferramenta de interpretação do mundo, que vimos até aqui.
A também consolidação do sistema capitalista, culminada pela Revolução
Industrial que ocorreu em meados do século XVIII, na Inglaterra, gerava grandes alterações no estilo de vida das pessoas, sobretudo nas das que viviam no campo ou do artesanato. Estes temas despertavam o interesse de críticos da época.
Dessa maneira, quando a Sociologia iniciou os seus trabalhos, ela o fez com base em pensadores que viram os problemas sociais ocasionados a partir da crise gerada pelos fatos acima mencionados.
Acompanhe:
Recorrendo à História para entendermos...
Podemos dizer que o início do sistema capitalista se deu na chamada Baixa Idade Média, entre os séculos IX e XV, na Europa Ocidental.
A partir do século XI, com as “cruzadas” realizadas pela Igreja Católica,
para conquistar Jerusalém que estava dominada pelos muçulmanos, um canal de circulação de riquezas na Europa foi aberto. O contato cultural e o comércio do ocidente com o oriente europeu foram retomados via Mar Mediterrâneo. Com a movimentação de pessoas e riquezas houve, na Europa Ocidental, o surgimento de núcleos urbanos, conhecidos por burgos. Destes, ressurgiram as cidades, pois existiam poucas naquele tempo. As chamadas corporações de ofício, que eram uma espécie de associação que organizava as atividades artesanais para ter acordo entre os preços de venda e qualidade do produto, por exemplo, começaram a aparecer a fim de regular o trabalho dos artesões que vinham para as cidades exercer sua profissão. Aqui vemos que a idéia do lucro se fortalecia.
Mais tarde, os europeus...
...começaram a explorar o comércio em termos mundiais, principalmente
depois dos séculos XV e XVI e das chamadas Grandes Navegações. Por exemplo, com o descobrimento da América, muita riqueza daqui era levada à Europa para a criação de mercadorias que seriam vendidas nesse mercado mundial que estava surgindo. A idéia de uma produção em série de mercadorias começava a surgir.
As antigas corporações de ofícios foram transformadas pelos comerciantes
da época em manufatura. O trabalho manufatureiro acontecia com vários artesãos, em locais separados e dirigidos por um comerciante que dava a eles a matéria-prima e as ferramentas. No final do trabalho encomendado, os artesões recebiam um pagamento acertado com o comerciante.
Mais à frente ainda, os comerciantes (futuros empresários capitalistas)
pensaram que seria melhor reunir todos esses artesãos num só lugar, pois assim poderiam ver o que eles estavam produzindo. Além de cuidar da qualidade do produto, o controle sobre a matéria-prima e ritmo da produção poderia ser maior. Foi então que surgiu a idéia da fábrica...
Um lugar com uma produção mais organizada, com a divisão de funções, onde o artesão passava a operar apenas parte da produção. Desse ponto, para a implantação das máquinas movidas a vapor, restava
somente o tempo da invenção das mesmas. Quando o inventor escocês James Watt (1736-1819) conseguiu patentear a máquina a vapor, em abril de 1784, ela veio dar grande impulso à industrialização que se instalava, aumentando a produção, diminuindo os gastos com mão-de-obra e aumentando o acúmulo de capital.
Veja o quadro que se montava...
O sistema feudal da Europa Ocidental, estava sendo superado. Ele não conseguiria suprir as necessidades dos novos mercados que se abriam. O sistema capitalista, com base na propriedade privada e no lucro, isto é, na acumulação de capital, estava sendo consolidado.
A partir da Revolução Industrial (século XVIII), as cidades da Europa
Ocidental começavam a se transformar em grandes centros urbanos comerciais e, posteriormente, industriais. Muitas delas “inchadas” por desempregados. O estilo de vida das pessoas estava se transformando – para alguns de forma violenta e radical – como era o caso de muitos camponeses que eram expulsos pelos senhores das terras que as cercavam para criar ovelhas e fornecer lã às fábricas de tecidos.
Já no caso dos artesãos, esses “perdiam” sua qualificação profissional e o controle sobre o que produziam, ou seja, de profissionais, passavam a “não ter profissão”, pois a indústria era quem ditava que tipo de profissional precisava ser. Não importava se fossem grandes artesãos, só precisariam aprender a operar a máquina da fábrica. Se fosse Hoje, usaríamos o termo aprender a “apertar botões”. Dessa maneira, como não tinham capital para ter uma produção autônoma e competir com a fábrica, submetiam-se ao trabalho assalariado.
Sistema feudal:
Sistema social que existiu durante a Idade Média. Com o
desaparecimento das cidades, o comércio também desaparecia.
As bases econômicas se centraram no campo, nos feudos. Os feudos eram
grandes áreas de terras pertencentes a um senhor. Dentro deles havia as colônias de servos que lavravam a terra. Parte da produção era destinada
ao senhor da terra, e parte era para os servos.
Novas e grandes invenções estavam sendo realizadas no campo tecnológico, como as próprias máquinas a vapor das indústrias. O comércio mundial estava aumentando cada vez mais. O mundo estava “encolhendo”, em termos de fronteiras comerciais e ficando “europeizado”. E em meio a isto, duas classes distintas emergiam: a composta pelos empresários e banqueiros, chamada de classe burguesa, e a classe assalariada, ou proletária.
A classe burguesa é aquela que ao longo do tempo veio acumulando
capital com o comércio e reteve os meios de produção em suas mãos, isto é, as ferramentas, os equipamentos fabris, o espaço da fábrica, etc., bem como o poder político. Já a classe proletária, sem capital e expropriada dos meios de produção, tornava-se fornecedora de mão-de-obra aos donos das fábricas.
Agora perceba comigo:
É em meio a todas essas transformações que ocorriam na Europa Ocidental, isto é, pela consolidação do sistema capitalista, a valorização da ciência contrapondo as explicações míticas sobre o mundo, a abertura de mercados mundiais, o surgimento de novas classes na sociedade e a crise da classe proletária versus enriquecimento da classe burguesa, é que a Sociologia começa a ser pensada como sendo uma ciência para dar respostas mais elaboradas sobre o caos social. A Sociologia e suas teorias, as quais vamos ver a seguir, se constituem ferramentas de reflexão sobre a sociedade industrial e científica que surgia. Vamos ver como elas refletem para entendermos os problemas sociais e ajudar a encontrar soluções para os mesmos.
Burguesia:
As pessoas que moravam
nos núcleos urbanos (burgos),
eram identificadas como
sendo os burgueses. Mas
com o passar dos tempos,
essa denominação ficou apenas
para os que haviam enriquecido
com o comércio, sobretudo
os comerciantes e
banqueiros
Referências:
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência. São Paulo: Ars Poética, 1996.
AZEVED , Fernando de. Princípios de Sociologia: pequena introdução ao estudo
da sociologia geral. 11ª ed. – São Paulo: Duas Cidades, 1973.
CASTRO, Ana Maria de, DIAS, Edmundo Fernandes. Contexto histórico do
aparecimento da sociologia. In.: Introdução ao pensamento sociológico. São
Paulo: Centauro, 2001.
CHAUI, Marilena de Souza. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1994.
MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1998.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Prezado aluno iniciaremos os nossos estudos de Sociologia fazendo
uma análise do contexto sócio-histórico que propiciou o seu surgimento e, a
partir daí, poderemos entender melhor o seu conceito e o seu objeto de
estudo.
OBJETIVO DA UNIDADE:
• Analisar as condições sócio-históricas que favoreceram o
surgimento da Sociologia como ciência, identificando seu objeto
de estudo e comparando as diferentes posturas paradigmáticas
neste contexto, a fim de que possa participar do processo social
conscientemente.
PLANO DA UNIDADE:
• O contexto sócio-histórico e intelectual do surgimento da
Sociologia.
• A crise do Feudalismo.
• A formação dos Estados-Nacionais.
• O Mercantilismo e a expansão comercial ultramarina.
• A Sociologia se estabelece como Ciência.
Bem-vindo à primeira unidade de estudo.
Sucesso!
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO E INTELECTUAL DO SURGIMENTO DA
SOCIOLOGIA
O surgimento da Sociologia pode ser identificado no bojo de um amplo
processo histórico que tem início na transição feudal-capitalista, quando se
dá a desagregação da sociedade feudal no
século XV e vai até o período das revoluções
burguesas - revolução industrial inglesa e a
revolução francesa no século XVIII, marcando
a consolidação da sociedade capitalista.
Respondendo a essas indagações,
estaremos com os nossos estudos bem
encaminhados... Sendo assim, vamos em
frente!
A CRISE DO FEUDALISMO
Caminharemos juntos nesta etapa, visando entender que, para que a
nova ordem pudesse ganhar espaço, o Feudalismo teria que extinguir todas
as suas possibilidades de reprodução.
A partir dos séculos XV e XVI podemos observar que grandes
transformações ocorreram na Europa e, conseqüentemente, no mundo todo.
Esses acontecimentos desestruturaram o
sistema feudal existente e deram origem a
um novo sistema – o capitalismo. A grande
crise do feudalismo desenvolveu-se na
Europa Ocidental no século XIV, atingindo
indiscriminadamente campo e cidade,
disseminando a fome, epidemias e as
guerras, podendo ser explicada por um
conjunto de fatores que trouxe, como
conseqüência, a superação do sistema
feudal.
A economia medieval encontrava-se em
crise face à baixa produtividade agrícola,
ocasionada pelo esgotamento dos solos - utilização inadequada de técnicas
agrícolas predatórias - o que projetava um declínio na produção de alimentos,
gerando a fome e, conseqüentemente, as epidemias.
Em meados do século XIV, os comerciantes genoveses trouxeram da
região do Mar Negro uma epidemia que, no espaço de dois anos, espalhou a
morte por toda a Europa, atingindo homens e mulheres adultos e crianças
de todos os segmentos sociais, sendo conhecida como Peste Negra – um
castigo de Deus.
A crise se agravou na medida em que os senhores feudais viram seus
rendimentos declinarem devido à falta de trabalhadores e ao despovoamento
dos campos.
Capitalismo: sistema
social baseado no capital, no
dinheiro.
SOCIOLOGIA APLICADA
A mortalidade trazida pela fome e a peste
negra foi ainda ampliada pela longa Guerra
dos Cem Anos (1337/1453), desencadeada
pela disputa das regiões de Bordéus e
Flandres, entre França e Inglaterra.
A conjuntura de epidemias, de aumento
brutal da mortalidade e de superexploração
camponesa que caracterizou a Europa do
século XIV trazendo a crise, foi sendo superada
no decorrer do século XV, com a retomada do
crescimento populacional, agrícola e comercial.
FORMAÇÃO DOS ESTADOS-NACIONAIS
Para acompanharmos as transformações em curso, é fundamental
concentrarmos-nos na aliança entre a burguesia e o rei, que resulta na formação
dos Estados-Nacionais, verificando-se a consolidação territorial a partir de
práticas políticas absolutistas, com o fortalecimento do poder e autoridade
dos reis.
Essa nova forma de organização política atendia aos interesses tanto
da nobreza quanto da burguesia. Os nobres, apesar de sua crescente
dependência frente aos reis e da perda de autonomia, tiveram assegurados
os seus privilégios feudais sobre os camponeses, mantendo suas terras e os
seus títulos nobiliárquicos, além de cargos administrativos, pensões e chefias
de regimentos militares.
Os burgueses procuraram aliar-se aos reis, financiando-os com recursos
para a manutenção de exércitos profissionais permanentes, necessários à
manutenção da ordem e do poder. Além disso, a centralização política e
administrativa trouxe a gradual unificação de impostos, leis, moedas, pesos,
medidas e alfândegas em cada país, beneficiando o comércio e a burguesia.
Os Estados-Nacionais, formados a partir de fins do século XIV em
Portugal e durante o século XV na França, Espanha e Inglaterra, evoluíram no
sentido do Absolutismo monárquico. Sistema político o qual o rei detém o poder
total, cabendo-lhe o direito de impor leis e obediência aos súditos. Mesmo as
regiões que permaneceram divididas em pequenos reinos e cidades, como a
Itália e a Alemanha, a tendência foi para o
fortalecimento do poder político dos
governantes locais.
MERCANTILISMO E A EXPANSÃO
COMERCIAL ULTRAMARINA
Veremos agora como os europeus –
pioneiramente Espanha e Portugal - chegam
a regiões nunca antes alcançadas e quais
os seus verdadeiros interesses. A expansão
territorial implementada pela política
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
mercantilista resultou na conquista e exploração de novos territórios
denominados “colônias” e estas passando a cumprir o papel de
complementaridade da economia da metrópole, constituindo-se em fontes
geradoras de riquezas dos países europeus. Através do “Pacto Colonial”,
ficava assegurada a exclusividade das transações mercantis estabelecidas
entre as metrópoles e suas respectivas colônias, numa relação também
conhecida como monopólio comercial.
Dentre as características do Mercantilismo, podemos identificar:
• expansão marítima comercial e a conquista de novos mercados
fornecedores de matérias-primas e mão-de-obra;
• busca incessante do lucro, através da manutenção de uma
balança comercial de superávit, ou seja, exportar sempre mais
do que importar;
• idéia metalista – nível de riqueza de um país medido pelo
montante de ouro e prata acumulado em seu tesouro nacional;
• absolutismo monárquico – poder político centralizado em torno
do rei que constituía-se na autoridade maior do sistema, com o
Estado controlando a política econômica em favor dos interesses
burgueses.
As práticas mercantilistas impulsionaram o crescimento do capitalismo
comercial dando origem à acumulação primitiva de capitais, pré-condição
necessária ao desenvolvimento do próprio capitalismo.
Secularização
É importante agora, percebermos as mudanças do
entendimento do homem sobre si mesmo e o mundo. Na transição
feudal-capitalista surge um novo homem, principalmente nos
centros urbanos, mais crítico e sensível, representando um
pensamento antropocêntrico – o homem como o centro de
todas as coisas e racionalista – crença ilimitada na capacidade
da razão em dar conta do mundo - movimento resgatado da
antiguidade greco-romana, que chocava-se com a postura
teocêntrica e dogmática, definida pelo poder clerical na Idade
Média.
Desenvolve-se, então, uma nova forma de entender a
realidade, isto é, a razão passou a ser considerada o elemento
principal de interpretação dos fatos. O homem constrói uma concepção
anticlerical apoiada em bases de liberdade, que não precisava se submeter
à autoridade divina imposta pela Igreja Católica.
Renascimento
O Renascimento foi um movimento intelectual que marcou a cultura
européia entre os séculos XIV e XVI, originário da Itália e irradiado por toda
a Europa.
SOCIOLOGIA APLICADA
Está associado ao humanismo e fudamentado nos conceitos da
civilização da antiguidade clássica, numa demonstração de
menosprezo pela Idade Média, considerada como “noite de mil anos”
ou “escuridão”.
O Renascimento representou uma nova visão de mundo que
atendia plenamente aos interesses da burguesia em ascensão. Suas
principais características eram o racionalismo, crença na razão como
forma explicativa do mundo em oposição à fé; o antropocentrismo,
colocando o homem no centro de todas as coisas, em oposição ao
teocentrismo e o individualismo, em oposição ao coletivismo cristão.
O Humanismo pregava a pesquisa, a crítica e a observação, em
oposição ao princípio da autoridade.
A explicação da origem italiana do Renascimento e do
Humanismo, se dá em função da riqueza das cidades italianas, da
presença de sábios bizantinos, da herança clássica da Antiga Roma
e da difusão do mecenato. A invenção da Imprensa contribuiu muito
para a divulgação das novas idéias.
Fases do Renascimento
O Renascimento pode ser dividido em três grandes fases,
correspondentes aos séculos XIV, XV e o XVI.
Trecento - século XIV - manifesta-se predominantemente na Itália, mais
especificamente na cidade de Florença, pólo político, econômico e cultural da
região. Giotto, Boccaccio e Petrarca estão entre seus representantes. Suas
características gerais são o rompimento com o imobilismo e a hierarquia da
pintura medieval - valorização do individualismo e dos detalhes humanos;
Quatrocento - século XV - o Renascimento espalha-se pela península
itálica, atingindo seu auge. Neste período atuam Botticelli, Leonardo da Vinci,
Rafael e, no seu final, Michelangelo, considerados os três últimos o “trio
sagrado” da Renascença. As características gerais do período são: inspiração
greco-romana (paganismo e línguas clássicas), racionalismo e
experimentalismo;
Cinquecento – século XVI - o Renascimento torna-se neste século um
movimento universal europeu, tendo, no entanto, iniciado sua decadência.
Ocorrem as primeiras manifestações maneiristas e a Contra-reforma instaura
o Barroco como estilo oficial da Igreja Católica. Na literatura atuaram Ludovico
Ariosto, Torquato Tasso e Nicolau Maquiavel, já na pintura eram Rafael e
Michelangelo.
O Iluminismo
O Iluminismo foi o movimento intelectual desenvolvido na França no século
XVII e teve o seu apogeu durante o século XVIII - o chamado “Século das
Luzes”, que enfatizava o domínio da razão e da ciência como formas de
explicação para todas as coisas do universo, substituindo as crenças religiosas
e o misticismo que bloqueavam a evolução do homem desde a Idade Média.
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Para os filósofos iluministas, o homem era naturalmente bom, porém
era corrompido pela sociedade com o passar do tempo. Eles acreditavam que
se todos fizessem parte de uma sociedade justa, com direitos iguais para
todos, a felicidade comum seria alcançada. Por esta razão, eles eram contra
as imposições de caráter religioso, contra as práticas mercantilistas, contrários
ao absolutismo do rei, além dos privilégios dados à nobreza e ao clero.
O Iluminismo foi mais intenso na França onde influenciou a Revolução
Francesa, assim como na Inglaterra e em diversos países da Europa onde a
força dos protestantes era maior, chegando a ter repercussões, mesmo em
alguns países católicos.
Podemos dizer que, de certo modo, este movimento é herdeiro da
tradição do Renascimento e do Humanismo por defender a valorização do
Homem e da Razão, contribuindo também para o avanço do capitalismo e
da sociedade moderna na medida em que disseminava os ideais de uma
sociedade “livre”, com possibilidades de transição de classes e mais
oportunidades iguais para todos.
Economicamente, o Iluminismo identificava que era da terra e da
natureza que deveriam ser extraídas as riquezas dos países. Segundo Adam
Smith, cada indivíduo deveria procurar lucro próprio sem escrúpulos o que,
em sua visão, geraria um bem-estar geral na civilização.
Os principais filósofos do Iluminismo foram: John Locke (1632-1704),
ele acreditava que o homem adquiria conhecimento com o passar do tempo
através do empirismo; Voltaire (1694-1778), ele defendia a liberdade de
pensamento e não poupava crítica à intolerância religiosa; Jean-Jacques
Rousseau (1712-1778), ele defendia a idéia de um estado democrático que
garantia igualdade para todos; Montesquieu (1689-1755), ele defendeu a
divisão do poder político em Legislativo, Executivo e Judiciário; Denis Diderot
(1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), juntos organizaram
uma enciclopédia que reunia conhecimentos e pensamentos filosóficos da
época.
O outro lado da moeda
Estas transformações foram acompanhadas, nos séculos XVII e XVIII,
por mudanças políticas, tais como: a Revolução Inglesa, a Revolução
SOCIOLOGIA APLICADA
Americana e a Revolução Francesa, que introduziram grandes alterações
nessas sociedades e influenciaram a mudança de outras no mundo a fora.
Você pode observar que a sociedade que antes tinha suas bases na
produção da terra passa a ter suas bases na produção industrial e trouxe
consigo uma nova forma de trabalho, que é o trabalho assalariado. Este
também trouxe novas formas de relações entre as pessoas e de
representatividade nos governos.
Tudo mudava. Aquela sociedade tradicional que antes existia estava
completamente transformada precisando se organizar para atender às novas
necessidades.
Revolução Industrial Inglesa
Agora, iremos pesquisar a revolução que alterou a relação entre os
homens, configurando as formas do mundo contemporâneo.
No decorrer do século XVIII, a Europa Ocidental passou por uma grande
transformação no setor da produção, em decorrência dos avanços das
técnicas de cultivo e da mecanização das fábricas, a qual se deu o nome de
Revolução Industrial. A invenção e o aperfeiçoamento das máquinas
permitiram o aumento vertiginoso da produtividade, resultando na diminuição
dos preços dos produtos e o crescimento do consumo e dos lucros.
Esse momento revolucionário de passagem da energia humana,
hidráulica e animal para motriz, é o ponto culminante de uma revolução
tecnológica, social e econômica, cujas origens podem ser encontradas nos
séculos XVI e XVII, com a política de incentivo ao comércio, adotada pelos
Estados-Nacionais e a adoção da política mercantilista. A acumulação de
capitais nas mãos dos comerciantes burgueses e a abertura dos mercados
proporcionada pela expansão marítima estimularam o crescimento da
produção, exigindo mais mercadorias e preços menores. Gradualmente,
passou-se do artesanato disperso para a produção em oficinas e destas
para a produção mecanizada nas fábricas.
Para Karl Marx, a Revolução Industrial integra o conjunto das
chamadas “Revoluções Burguesas” do século XVIII, responsáveis pela crise
do Antigo Regime na passagem do capitalismo comercial para o industrial.
Os outros dois movimentos que a acompanham são a Independência dos
Estados Unidos e a Revolução Francesa que, sob influência dos princípios
iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para a Idade
Contemporânea.
A Inglaterra foi o país pioneiro da industrialização, sendo que alguns
fatores contribuíram para isso:
• o principal deles foi a aplicação de uma política econômica liberal
em meados do século XVIII, liberalizando a indústria e o
comércio o que acarretou um enorme progresso tecnológico e
aumento da produtividade em um curto espaço de tempo;
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
• a Lei de Cercamento dos Campos, denominados “enclouseres”
marcou o fim do uso comum das terras, expulsando o homem
do campo e gerando o “trabalhador livre”. Na medida em que
não tinham mais condições de vida no meio rural, partiam para
as cidades, gerando forte concentração de mão-de-obra urbana,
o que favorecia às indústrias;
• a Inglaterra possuía grandes reservas de carvão mineral em
seu subsolo, a principal fonte de energia para movimentar as
máquinas e as locomotivas a vapor. Possuíam também
consideráveis reservas de minério de ferro, principal matériaprima
utilizada neste período.
• a burguesia inglesa tinha capital suficiente para financiar as
fábricas, comprar matéria-prima, máquinas e contratar
empregados por causa da grande taxa de poupança que existia
na época;
• a agricultura inglesa desenvolveu-se com a difusão de novas
técnicas e instrumentos de cultivo.
A mecanização da produção criou o proletariado rural e urbano,
composto de homens, mulheres e crianças, submetido a jornadas de trabalho
diárias, extensivas e intensivas, de mais de 16 horas no campo ou nas fábricas.
Com a Revolução Industrial, consolida-se o sistema capitalista baseado
em duas classes fundamentais: a burguesia detentora do capital e o
proletariado, que nada possuíam a não ser a sua força de trabalho, que
vendiam aos capitalistas em troca de um salário.
O capital apresenta-se sob a forma de terras, dinheiro, lojas, máquinas
ou crédito. O agricultor, o comerciante, o industrial e o banqueiro, donos do
capital, controlam o processo de produção, contratam ou demitem os
trabalhadores, conforme seus interesses.
As formas de transformação de matérias-primas em produtos são:
trabalho artesanal – é a forma mais primitiva de trabalho, dominada
pelo homem há milhares de anos. O trabalho era manual, sem a utilização
de máquinas e o artesão realizava sozinho todas as etapas da produção,
desde o preparo da matéria-prima até o acabamento final dos produtos,
não havendo divisão do trabalho. O artesão era dono dos meios de produção
- oficina e ferramentas simples - possuindo também o produto final de seu
trabalho.
trabalho manufaturado – estágio intermediário entre o artesanato e a
indústria. Neste processo, podemos observar o uso de máquinas simples e
a divisão social do trabalho (especialização do trabalhador) com cada
trabalhador ou grupo de trabalhadores, realizando uma etapa para a obtenção
do produto final. Na manufatura, já encontramos a figura do capitalista com
interferência direta no processo produtivo, passando a comprar a matériaprima
e a determinar o ritmo de produção.
indústria moderna – com a mecanização da produção introduzida pela
Revolução Industrial, os trabalhadores perdem o controle do processo
SOCIOLOGIA APLICADA
produtivo, passando a trabalhar para um patrão – burguês - na condição de
operários – empregados assalariados. Esses trabalhadores passam a
manejar máquinas que pertencem agora ao empresário, dono dos meios de
produção e para o qual se destina o lucro, sendo que a matéria-prima e o
produto final não mais lhes pertencem.
Temos como etapas da industrialização, os seguintes períodos:
Primeira Revolução Industrial – desenvolvida entre meados do século
XVIII até as últimas décadas do século XIX, com a predominância do trabalho
intensivo com jornadas de trabalho de até 16 horas por dia, com baixa
remuneração do operariado. Utilização de máquinas à vapor nas indústrias
têxteis, sendo que a grande fonte de energia era o carvão mineral.
Segunda Revolução Industrial – compreendida entre as últimas décadas
do século XIX até o final da década de 1970 – século XX. A jornada de trabalho
cai para 8 horas diárias e passa a ser regulamentada por leis trabalhistas, a
partir dos avanços sociais relativos ao processo histórico de cada país. O
petróleo vai substituindo o carvão até se constituir na principal fonte de
energia e a indústria automobilística como maior atividade produtiva.
Terceira Revolução Industrial – conhecida também como Revolução
Técnico-Científica, tem início a apartir da segunda metade da década de 1970,
sendo caracterizada pelo avanço do conhecimento e tecnologia avançada.
As jornadas de trabalho são mantidas em 8 horas diárias. Os setores de
ponta são a informática, a robótica, as telecomunicações, a química fina e a
biotecnologia. Neste período, temos uma diversificação quanto às fontes de
energia – hidrogênio, energia solar, etc.
A Revolução Industrial favoreceu também o desenvolvimento dos
transportes. Logo vieram a locomotiva e a navegação a vapor, o que fez com
que houvesse uma redução nos custos dos fretes, baixando os preços dos
produtos e aumentando o consumo.
Com a Revolução Industrial, a Inglaterra se transformou no maior
produtor e exportador de produtos manufaturados e a população dos centros
urbanos cresceu assustadoramente. Não podemos esquecer de que havia
nesse país matérias-primas indispensáveis para o funcionamento e a
construção dessas máquinas – carvão e ferro.
E, então, você já pode imaginar o que foi acontecendo: a burguesia
investiu na inovação tecnológica e as máquinas foram cada vez mais se
aprimorando e aumentando a produção que se expandia por todo o mundo,
estabelecendo laços de dependência entre as nações.
O trabalho assalariado que substitui o trabalho artesanal ganha força
utilizando-se fortemente da mão-de-obra feminina e infantil e a energia a
vapor cresce em lugar da energia humana.
Revolução Francesa
A Revolução Francesa é um importante marco histórico da transição do
feudalismo para o capitalismo, inaugurando um novo modelo de sociedade
baseada na economia de mercado.
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
A Revolução Francesa significou o colapso das instituições feudais do
Antigo Regime e o fim da monarquia absoluta na França. Ao mesmo tempo,
propiciou a ascensão da burguesia ao poder político, fortalecendo as condições
essenciais para a consolidação do capitalismo.
Movimento político de extrema relevância para o continente europeu e
para o Ocidente, a Revolução Francesa teve início em 1789 e se prolongou
até 1815. Sofreu grande influência dos ideais do Iluminismo, baseando-se
no direito à liberdade, à igualdade e à fraternidade e nos princípios
democráticos e liberais da Independência Americana(1776).
O êxito do processo revolucionário francês, encerrando os privilégios
da nobreza e do clero, serviu de motivação para novos movimentos em
direção ao igualitarismo em outras partes da Europa.
A Revolução Francesa pode ser subdividida em quatro grandes
períodos: a Assembléia Constituinte, a Assembléia Legislativa, a Convenção
e o Directório.
Causas da Revolução
A Revolução Francesa foi resultado de uma conjugação de fatores
sociais, econômicos, políticos e, pelo menos um desses fatores, é apontado,
pela maioria dos historiadores, como determinante para o desencadeamento
do processo revolucionário. Trata-se do descontentamento do povo com os
abusos e privilégios do regime absolutista.
A composição social da sociedade francesa, na segunda metade do
século XVIII, é marcada por uma rígida hierarquia e estratificação social. A
hierarquia social francesa propiciava honras e privilégios em função do
nascimento e dividia a população de maneira discriminatória segundo ordens
ou estados.
De um lado, duas classes – o clero e a nobreza, que juntas usufruíam
dos privilégios e da riqueza produzida pela sociedade francesa.
O Clero ou 1º Estado composto por importantes membros da Igreja
Católica, originário da nobreza, que em 1789 representava 2% da população
francesa.
A Nobreza ou 2º Estado formado pelo rei e sua família, bem como
outros nobres como: condes, duques, marqueses, aproximava-se de 1,5%
dos habitantes. Controlava a maior parte das terras, concentrando em suas
mãos boa parte de tudo que produziam os camponeses; gozava de inúmeros
privilégios e não pagava impostos.
Do outro lado, o povo – base da sociedade francesa, que sustentava
pelo peso de impostos que pagava, a vida de riqueza e muito luxo dos nobres
e do clero.
O Povo ou 3º Estado era formado pela burguesia, pelos trabalhadores
urbanos (a maioria deles desempregados), artesãos e camponeses - sans
cullotes.
SOCIOLOGIA APLICADA
O desenvolvimento do comércio e da indústria, assim como a conquista
de novos mercados na Europa e fora dela, fizeram a burguesia acumular
riquezas muito rapidamente. A confortável posição que desfrutava no campo
dos negócios, contrastava com a desfavorável condição que a burguesia
ocupava na vida política do regime absolutista. Apesar de rica, a estrutura
social francesa barrava a ascensão da burguesia, uma vez que os privilégios,
honras e títulos estavam reservados somente à nobreza e ao alto clero.
Além disso, a má administração das finanças, a cobrança excessiva de
impostos e os gastos descontrolados da nobreza eram considerados
obstáculos aos interesses burgueses.
Os camponeses e os trabalhadores urbanos que representavam a
esmagadora maioria da população francesa viviam em precárias condições
de vida e de existência, ou seja, em quase absoluta miséria.
No campo, embora grande parte dos camponeses fosse livre, somente
uma pequena parcela podia manter-se com a produção da terra. A elevada
carga de impostos relegou boa parte dos pequenos proprietários a subsistir
trabalhando nas propriedades dos grandes senhores ou dedicar-se a
produção artesanal.
Por outro lado, o progresso industrial não representou para a classe
trabalhadora operária uma melhoria das condições de vida e de trabalho. A
classe operária convivia com salários muito baixos e com altos níveis de
desemprego.
O quadro de desigualdade social da sociedade francesa, alimentado
pela crise econômico-financeira do Antigo Regime, tornou ainda mais precárias
as condições em que viviam os trabalhadores do campo e da cidade.
Relegados a condições miseráveis de existência, camponeses e trabalhadores
urbanos desejavam novas formas de vida e de trabalho.
As origens do processo revolucionário francês de 1789 devem ser
buscadas nas contradições dos interesses estabelecidos pelo regime
absolutista e as novas forças sociais que estavam em ascensão. Ou seja, os
interesses econômicos e políticos da nova e poderosa classe burguesa
sufocada por uma organização social aristocrática e decadente fizeram
despertar o povo (o terceiro estado), que passou a rejeitar as ordens, as
diferenças sociais e as restrições. Diante das promessas igualdade e
fraternidade, o povo foi atraído para a causa
revolucionária.
A SOCIOLOGIA SE ESTABELECE COMO
CIÊNCIA
Tendo em vista todos estes
acontecimentos, Augusto Comte (1798-
1857) defende uma proposta para resolver
os problemas da sociedade de sua época que
viria através da reforma intelectual do homem
alcançando a reforma das instituições.
Liberalismo: corrente
política de pensamento que
defende a liberdade do indivíduo
frente ao
intervencionismo do Estado.
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Estas reformas estavam embasadas no Liberalismo que triunfara no
século XIX e pregava a liberdade e a igualdade inata entre os homens. Porém,
suas reformas estabeleciam a autoridade e a ordem pública contra os abusos
do individualismo da Escola Liberal (RIBEIRO JR. 1988:15).
A Sociologia nasce como resposta a esse individualismo pregado pela
sociedade capitalista e vai assim enfatizar as ações altruístas entre os
homens.
O positivismo de Comte comparava a sociedade à vida orgânica, cujas
partes que a constituem desempenham funções que se orientam para a
preservação do todo. Sendo assim, a sociedade não poderia sofrer revoluções
violentas e sim se desenvolver harmoniosamente. Repudia o laissez-faire
do Liberalismo, pregando o planejamento social.
Comte defendia a idéia de que as ciências deveriam atingir a máxima
objetividade possível.
A influência de Comte foi além da escola francesa, atingindo também
os republicanos no Brasil, como podemos observar, o lema na bandeira
nacional “Ordem e Progresso”.
A especificidade do conhecimento sociológico
As ciências se distinguem pelos seus objetos de estudo e pelos seus
métodos.
E com a Sociologia não vai ser diferente. Se observarmos uma
sociedade, veremos que os homens praticam atos que podemos chamar de
individuais, tais como: dormir, respirar, caminhar, como também, praticam atos
considerados sociais – casar, fazer reuniões, pedir demissão – são situações
que só podem ser entendidas através das relações que se estabelecem
entre indivíduos ou grupos de indivíduos e que não podem ser entendidas
isoladamente. São estes fatos coletivos que interessam à Sociologia, pois
suas causas são encontradas não no individual, mas sim na sociedade.
É HORA DE SE AVALIAR!
Não esqueça de realizar as atividades desta unidade de
estudo, presentes no caderno de exercício! Elas irão ajudálo
a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no
processo de ensino-aprendizagem. Caso prefira, redija as
respostas no caderno e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA). Interaja conosco!
Nesta primeira unidade estudamos a formação da Sociologia como
conhecimento científico. Na próxima unidade, estudaremos a Sociologia
Clássica. Espero você na próxima unidade. Temos muito que estudar!
Positivismo: corrente filosófica
cujo iniciador foi
Augusto Comte. Defendia a
ciência acima de tudo.
Laissez-faire: expressão
francesa que transmite uma
das essências do Liberalismo
que dizia: deixai - fazer, ou
seja, o homem era livre para
fazer o que quisesse.
Objeto de estudo: aquilo
que vai ser estudado pelo cientista.
EXERCÍCIOS DE AUTO-AVALIAÇÃO
1. A partir da transição feudal-capitalista, surge uma nova postura intelectual
do homem, nova forma de ver a realidade e uma nova maneira de interpretar
as coisas sagradas, que o colocava numa condição de liberdade, rompendo
com a submissão diante da autoridade divina:
a) existencialismo;
b) positivismo;
c) marxismo;
d) racionalismo;
e) tomismo.
2. A Sociologia é a ciência que estuda as ações humanas sob qual perspectiva?
a) As ações humanas fora do contexto histórico-social;
b) As ações humanas comparativamente às demais espécies animais;
c) As ações humanas tomadas isoladamente;
d) As ações humanas tomadas em coletividade;
e) As ações humanas tomadas em estado de natureza.
3. Dentre os pensadores iluministas, destacamos Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), que defendia a idéia de:
a) procura do lucro individual sem escrúpulos;
b) centralização política em torno de um Estado forte;
c) intolerância religiosa;
d) um estado democrático que garanta igualdade para todos;
e) divisão do poder político em Legislativo, Executivo e Judiciário.
4. A Crise Geral do Feudalismo do século XIV, só foi superada em função da:
a) retomada do crescimento populacional, agrícola e comercial;
b) linha de crédito bancária obtida junto aos reis;
c) Revolução Industrial Inglesa;
d) fatores naturais dada a fé religiosa do povo;
e) união entre todos os segmentos sociais em torno do Pacto de Moncloa.
5. A produção industrial trouxe consigo uma nova forma de expressão do
trabalho:
a) servil;
b) escravo;
c) voluntário;
d) assalariado;
e) terceirizado.
10
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
6. A Revolução Industrial inglesa, utiliza em seus momentos iniciais, que tipos
de energia?
a) Energia humana e energia eólica;
b) Energia humana e energia a vapor;
c) Energia humana e energia nuclear;
d) Energia humana e energia elétrica;
e) Energia humana e energia solar.
7. Que tipo de motivação, inserida na lógica do capitalismo, levou a classe
burguesa a investir em “inventos”?
a) Acompanhar o ritmo de produção da classe trabalhadora;
b) Retração da produção para atendimento do mercado interno;
c) Atender as exigências dos reis;
d) Renovação do parque industrial;
e) Racionalização e aumento da produção.
8. Com a Revolução Industrial, que tipo de fenômeno populacional se deu
na Inglaterra?
a) Aumento vertiginoso das populações urbanas;
b) Envelhecimento assustador da população adulta;
c) Aumento da população feminina, uma vez que o número de óbito entre
os homens aumentou em face da exploração desumana do trabalhador;
d) Alta na taxa de mortalidade infantil, num processo de contaminação
produzida pelas máquinas;
e) Aumento da taxa de mortalidade, tanto dos homens quanto das mulheres,
em razão de que, as condições de trabalho no sistema capitalista,
se apresentavam mais hostis do que as verificadas no sistema
feudal.
EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM E FIXAÇÃO
1. O que foi o Renascimento e quais as suas principais características?
___________________________________________________________
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___________________________________________________________
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2. O que foi o “Pacto Colonial” e quais as partes envolvidas neste acordo?
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uma análise do contexto sócio-histórico que propiciou o seu surgimento e, a
partir daí, poderemos entender melhor o seu conceito e o seu objeto de
estudo.
OBJETIVO DA UNIDADE:
• Analisar as condições sócio-históricas que favoreceram o
surgimento da Sociologia como ciência, identificando seu objeto
de estudo e comparando as diferentes posturas paradigmáticas
neste contexto, a fim de que possa participar do processo social
conscientemente.
PLANO DA UNIDADE:
• O contexto sócio-histórico e intelectual do surgimento da
Sociologia.
• A crise do Feudalismo.
• A formação dos Estados-Nacionais.
• O Mercantilismo e a expansão comercial ultramarina.
• A Sociologia se estabelece como Ciência.
Bem-vindo à primeira unidade de estudo.
Sucesso!
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO E INTELECTUAL DO SURGIMENTO DA
SOCIOLOGIA
O surgimento da Sociologia pode ser identificado no bojo de um amplo
processo histórico que tem início na transição feudal-capitalista, quando se
dá a desagregação da sociedade feudal no
século XV e vai até o período das revoluções
burguesas - revolução industrial inglesa e a
revolução francesa no século XVIII, marcando
a consolidação da sociedade capitalista.
Respondendo a essas indagações,
estaremos com os nossos estudos bem
encaminhados... Sendo assim, vamos em
frente!
A CRISE DO FEUDALISMO
Caminharemos juntos nesta etapa, visando entender que, para que a
nova ordem pudesse ganhar espaço, o Feudalismo teria que extinguir todas
as suas possibilidades de reprodução.
A partir dos séculos XV e XVI podemos observar que grandes
transformações ocorreram na Europa e, conseqüentemente, no mundo todo.
Esses acontecimentos desestruturaram o
sistema feudal existente e deram origem a
um novo sistema – o capitalismo. A grande
crise do feudalismo desenvolveu-se na
Europa Ocidental no século XIV, atingindo
indiscriminadamente campo e cidade,
disseminando a fome, epidemias e as
guerras, podendo ser explicada por um
conjunto de fatores que trouxe, como
conseqüência, a superação do sistema
feudal.
A economia medieval encontrava-se em
crise face à baixa produtividade agrícola,
ocasionada pelo esgotamento dos solos - utilização inadequada de técnicas
agrícolas predatórias - o que projetava um declínio na produção de alimentos,
gerando a fome e, conseqüentemente, as epidemias.
Em meados do século XIV, os comerciantes genoveses trouxeram da
região do Mar Negro uma epidemia que, no espaço de dois anos, espalhou a
morte por toda a Europa, atingindo homens e mulheres adultos e crianças
de todos os segmentos sociais, sendo conhecida como Peste Negra – um
castigo de Deus.
A crise se agravou na medida em que os senhores feudais viram seus
rendimentos declinarem devido à falta de trabalhadores e ao despovoamento
dos campos.
Capitalismo: sistema
social baseado no capital, no
dinheiro.
SOCIOLOGIA APLICADA
A mortalidade trazida pela fome e a peste
negra foi ainda ampliada pela longa Guerra
dos Cem Anos (1337/1453), desencadeada
pela disputa das regiões de Bordéus e
Flandres, entre França e Inglaterra.
A conjuntura de epidemias, de aumento
brutal da mortalidade e de superexploração
camponesa que caracterizou a Europa do
século XIV trazendo a crise, foi sendo superada
no decorrer do século XV, com a retomada do
crescimento populacional, agrícola e comercial.
FORMAÇÃO DOS ESTADOS-NACIONAIS
Para acompanharmos as transformações em curso, é fundamental
concentrarmos-nos na aliança entre a burguesia e o rei, que resulta na formação
dos Estados-Nacionais, verificando-se a consolidação territorial a partir de
práticas políticas absolutistas, com o fortalecimento do poder e autoridade
dos reis.
Essa nova forma de organização política atendia aos interesses tanto
da nobreza quanto da burguesia. Os nobres, apesar de sua crescente
dependência frente aos reis e da perda de autonomia, tiveram assegurados
os seus privilégios feudais sobre os camponeses, mantendo suas terras e os
seus títulos nobiliárquicos, além de cargos administrativos, pensões e chefias
de regimentos militares.
Os burgueses procuraram aliar-se aos reis, financiando-os com recursos
para a manutenção de exércitos profissionais permanentes, necessários à
manutenção da ordem e do poder. Além disso, a centralização política e
administrativa trouxe a gradual unificação de impostos, leis, moedas, pesos,
medidas e alfândegas em cada país, beneficiando o comércio e a burguesia.
Os Estados-Nacionais, formados a partir de fins do século XIV em
Portugal e durante o século XV na França, Espanha e Inglaterra, evoluíram no
sentido do Absolutismo monárquico. Sistema político o qual o rei detém o poder
total, cabendo-lhe o direito de impor leis e obediência aos súditos. Mesmo as
regiões que permaneceram divididas em pequenos reinos e cidades, como a
Itália e a Alemanha, a tendência foi para o
fortalecimento do poder político dos
governantes locais.
MERCANTILISMO E A EXPANSÃO
COMERCIAL ULTRAMARINA
Veremos agora como os europeus –
pioneiramente Espanha e Portugal - chegam
a regiões nunca antes alcançadas e quais
os seus verdadeiros interesses. A expansão
territorial implementada pela política
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
mercantilista resultou na conquista e exploração de novos territórios
denominados “colônias” e estas passando a cumprir o papel de
complementaridade da economia da metrópole, constituindo-se em fontes
geradoras de riquezas dos países europeus. Através do “Pacto Colonial”,
ficava assegurada a exclusividade das transações mercantis estabelecidas
entre as metrópoles e suas respectivas colônias, numa relação também
conhecida como monopólio comercial.
Dentre as características do Mercantilismo, podemos identificar:
• expansão marítima comercial e a conquista de novos mercados
fornecedores de matérias-primas e mão-de-obra;
• busca incessante do lucro, através da manutenção de uma
balança comercial de superávit, ou seja, exportar sempre mais
do que importar;
• idéia metalista – nível de riqueza de um país medido pelo
montante de ouro e prata acumulado em seu tesouro nacional;
• absolutismo monárquico – poder político centralizado em torno
do rei que constituía-se na autoridade maior do sistema, com o
Estado controlando a política econômica em favor dos interesses
burgueses.
As práticas mercantilistas impulsionaram o crescimento do capitalismo
comercial dando origem à acumulação primitiva de capitais, pré-condição
necessária ao desenvolvimento do próprio capitalismo.
Secularização
É importante agora, percebermos as mudanças do
entendimento do homem sobre si mesmo e o mundo. Na transição
feudal-capitalista surge um novo homem, principalmente nos
centros urbanos, mais crítico e sensível, representando um
pensamento antropocêntrico – o homem como o centro de
todas as coisas e racionalista – crença ilimitada na capacidade
da razão em dar conta do mundo - movimento resgatado da
antiguidade greco-romana, que chocava-se com a postura
teocêntrica e dogmática, definida pelo poder clerical na Idade
Média.
Desenvolve-se, então, uma nova forma de entender a
realidade, isto é, a razão passou a ser considerada o elemento
principal de interpretação dos fatos. O homem constrói uma concepção
anticlerical apoiada em bases de liberdade, que não precisava se submeter
à autoridade divina imposta pela Igreja Católica.
Renascimento
O Renascimento foi um movimento intelectual que marcou a cultura
européia entre os séculos XIV e XVI, originário da Itália e irradiado por toda
a Europa.
SOCIOLOGIA APLICADA
Está associado ao humanismo e fudamentado nos conceitos da
civilização da antiguidade clássica, numa demonstração de
menosprezo pela Idade Média, considerada como “noite de mil anos”
ou “escuridão”.
O Renascimento representou uma nova visão de mundo que
atendia plenamente aos interesses da burguesia em ascensão. Suas
principais características eram o racionalismo, crença na razão como
forma explicativa do mundo em oposição à fé; o antropocentrismo,
colocando o homem no centro de todas as coisas, em oposição ao
teocentrismo e o individualismo, em oposição ao coletivismo cristão.
O Humanismo pregava a pesquisa, a crítica e a observação, em
oposição ao princípio da autoridade.
A explicação da origem italiana do Renascimento e do
Humanismo, se dá em função da riqueza das cidades italianas, da
presença de sábios bizantinos, da herança clássica da Antiga Roma
e da difusão do mecenato. A invenção da Imprensa contribuiu muito
para a divulgação das novas idéias.
Fases do Renascimento
O Renascimento pode ser dividido em três grandes fases,
correspondentes aos séculos XIV, XV e o XVI.
Trecento - século XIV - manifesta-se predominantemente na Itália, mais
especificamente na cidade de Florença, pólo político, econômico e cultural da
região. Giotto, Boccaccio e Petrarca estão entre seus representantes. Suas
características gerais são o rompimento com o imobilismo e a hierarquia da
pintura medieval - valorização do individualismo e dos detalhes humanos;
Quatrocento - século XV - o Renascimento espalha-se pela península
itálica, atingindo seu auge. Neste período atuam Botticelli, Leonardo da Vinci,
Rafael e, no seu final, Michelangelo, considerados os três últimos o “trio
sagrado” da Renascença. As características gerais do período são: inspiração
greco-romana (paganismo e línguas clássicas), racionalismo e
experimentalismo;
Cinquecento – século XVI - o Renascimento torna-se neste século um
movimento universal europeu, tendo, no entanto, iniciado sua decadência.
Ocorrem as primeiras manifestações maneiristas e a Contra-reforma instaura
o Barroco como estilo oficial da Igreja Católica. Na literatura atuaram Ludovico
Ariosto, Torquato Tasso e Nicolau Maquiavel, já na pintura eram Rafael e
Michelangelo.
O Iluminismo
O Iluminismo foi o movimento intelectual desenvolvido na França no século
XVII e teve o seu apogeu durante o século XVIII - o chamado “Século das
Luzes”, que enfatizava o domínio da razão e da ciência como formas de
explicação para todas as coisas do universo, substituindo as crenças religiosas
e o misticismo que bloqueavam a evolução do homem desde a Idade Média.
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Para os filósofos iluministas, o homem era naturalmente bom, porém
era corrompido pela sociedade com o passar do tempo. Eles acreditavam que
se todos fizessem parte de uma sociedade justa, com direitos iguais para
todos, a felicidade comum seria alcançada. Por esta razão, eles eram contra
as imposições de caráter religioso, contra as práticas mercantilistas, contrários
ao absolutismo do rei, além dos privilégios dados à nobreza e ao clero.
O Iluminismo foi mais intenso na França onde influenciou a Revolução
Francesa, assim como na Inglaterra e em diversos países da Europa onde a
força dos protestantes era maior, chegando a ter repercussões, mesmo em
alguns países católicos.
Podemos dizer que, de certo modo, este movimento é herdeiro da
tradição do Renascimento e do Humanismo por defender a valorização do
Homem e da Razão, contribuindo também para o avanço do capitalismo e
da sociedade moderna na medida em que disseminava os ideais de uma
sociedade “livre”, com possibilidades de transição de classes e mais
oportunidades iguais para todos.
Economicamente, o Iluminismo identificava que era da terra e da
natureza que deveriam ser extraídas as riquezas dos países. Segundo Adam
Smith, cada indivíduo deveria procurar lucro próprio sem escrúpulos o que,
em sua visão, geraria um bem-estar geral na civilização.
Os principais filósofos do Iluminismo foram: John Locke (1632-1704),
ele acreditava que o homem adquiria conhecimento com o passar do tempo
através do empirismo; Voltaire (1694-1778), ele defendia a liberdade de
pensamento e não poupava crítica à intolerância religiosa; Jean-Jacques
Rousseau (1712-1778), ele defendia a idéia de um estado democrático que
garantia igualdade para todos; Montesquieu (1689-1755), ele defendeu a
divisão do poder político em Legislativo, Executivo e Judiciário; Denis Diderot
(1713-1784) e Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783), juntos organizaram
uma enciclopédia que reunia conhecimentos e pensamentos filosóficos da
época.
O outro lado da moeda
Estas transformações foram acompanhadas, nos séculos XVII e XVIII,
por mudanças políticas, tais como: a Revolução Inglesa, a Revolução
SOCIOLOGIA APLICADA
Americana e a Revolução Francesa, que introduziram grandes alterações
nessas sociedades e influenciaram a mudança de outras no mundo a fora.
Você pode observar que a sociedade que antes tinha suas bases na
produção da terra passa a ter suas bases na produção industrial e trouxe
consigo uma nova forma de trabalho, que é o trabalho assalariado. Este
também trouxe novas formas de relações entre as pessoas e de
representatividade nos governos.
Tudo mudava. Aquela sociedade tradicional que antes existia estava
completamente transformada precisando se organizar para atender às novas
necessidades.
Revolução Industrial Inglesa
Agora, iremos pesquisar a revolução que alterou a relação entre os
homens, configurando as formas do mundo contemporâneo.
No decorrer do século XVIII, a Europa Ocidental passou por uma grande
transformação no setor da produção, em decorrência dos avanços das
técnicas de cultivo e da mecanização das fábricas, a qual se deu o nome de
Revolução Industrial. A invenção e o aperfeiçoamento das máquinas
permitiram o aumento vertiginoso da produtividade, resultando na diminuição
dos preços dos produtos e o crescimento do consumo e dos lucros.
Esse momento revolucionário de passagem da energia humana,
hidráulica e animal para motriz, é o ponto culminante de uma revolução
tecnológica, social e econômica, cujas origens podem ser encontradas nos
séculos XVI e XVII, com a política de incentivo ao comércio, adotada pelos
Estados-Nacionais e a adoção da política mercantilista. A acumulação de
capitais nas mãos dos comerciantes burgueses e a abertura dos mercados
proporcionada pela expansão marítima estimularam o crescimento da
produção, exigindo mais mercadorias e preços menores. Gradualmente,
passou-se do artesanato disperso para a produção em oficinas e destas
para a produção mecanizada nas fábricas.
Para Karl Marx, a Revolução Industrial integra o conjunto das
chamadas “Revoluções Burguesas” do século XVIII, responsáveis pela crise
do Antigo Regime na passagem do capitalismo comercial para o industrial.
Os outros dois movimentos que a acompanham são a Independência dos
Estados Unidos e a Revolução Francesa que, sob influência dos princípios
iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para a Idade
Contemporânea.
A Inglaterra foi o país pioneiro da industrialização, sendo que alguns
fatores contribuíram para isso:
• o principal deles foi a aplicação de uma política econômica liberal
em meados do século XVIII, liberalizando a indústria e o
comércio o que acarretou um enorme progresso tecnológico e
aumento da produtividade em um curto espaço de tempo;
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
• a Lei de Cercamento dos Campos, denominados “enclouseres”
marcou o fim do uso comum das terras, expulsando o homem
do campo e gerando o “trabalhador livre”. Na medida em que
não tinham mais condições de vida no meio rural, partiam para
as cidades, gerando forte concentração de mão-de-obra urbana,
o que favorecia às indústrias;
• a Inglaterra possuía grandes reservas de carvão mineral em
seu subsolo, a principal fonte de energia para movimentar as
máquinas e as locomotivas a vapor. Possuíam também
consideráveis reservas de minério de ferro, principal matériaprima
utilizada neste período.
• a burguesia inglesa tinha capital suficiente para financiar as
fábricas, comprar matéria-prima, máquinas e contratar
empregados por causa da grande taxa de poupança que existia
na época;
• a agricultura inglesa desenvolveu-se com a difusão de novas
técnicas e instrumentos de cultivo.
A mecanização da produção criou o proletariado rural e urbano,
composto de homens, mulheres e crianças, submetido a jornadas de trabalho
diárias, extensivas e intensivas, de mais de 16 horas no campo ou nas fábricas.
Com a Revolução Industrial, consolida-se o sistema capitalista baseado
em duas classes fundamentais: a burguesia detentora do capital e o
proletariado, que nada possuíam a não ser a sua força de trabalho, que
vendiam aos capitalistas em troca de um salário.
O capital apresenta-se sob a forma de terras, dinheiro, lojas, máquinas
ou crédito. O agricultor, o comerciante, o industrial e o banqueiro, donos do
capital, controlam o processo de produção, contratam ou demitem os
trabalhadores, conforme seus interesses.
As formas de transformação de matérias-primas em produtos são:
trabalho artesanal – é a forma mais primitiva de trabalho, dominada
pelo homem há milhares de anos. O trabalho era manual, sem a utilização
de máquinas e o artesão realizava sozinho todas as etapas da produção,
desde o preparo da matéria-prima até o acabamento final dos produtos,
não havendo divisão do trabalho. O artesão era dono dos meios de produção
- oficina e ferramentas simples - possuindo também o produto final de seu
trabalho.
trabalho manufaturado – estágio intermediário entre o artesanato e a
indústria. Neste processo, podemos observar o uso de máquinas simples e
a divisão social do trabalho (especialização do trabalhador) com cada
trabalhador ou grupo de trabalhadores, realizando uma etapa para a obtenção
do produto final. Na manufatura, já encontramos a figura do capitalista com
interferência direta no processo produtivo, passando a comprar a matériaprima
e a determinar o ritmo de produção.
indústria moderna – com a mecanização da produção introduzida pela
Revolução Industrial, os trabalhadores perdem o controle do processo
SOCIOLOGIA APLICADA
produtivo, passando a trabalhar para um patrão – burguês - na condição de
operários – empregados assalariados. Esses trabalhadores passam a
manejar máquinas que pertencem agora ao empresário, dono dos meios de
produção e para o qual se destina o lucro, sendo que a matéria-prima e o
produto final não mais lhes pertencem.
Temos como etapas da industrialização, os seguintes períodos:
Primeira Revolução Industrial – desenvolvida entre meados do século
XVIII até as últimas décadas do século XIX, com a predominância do trabalho
intensivo com jornadas de trabalho de até 16 horas por dia, com baixa
remuneração do operariado. Utilização de máquinas à vapor nas indústrias
têxteis, sendo que a grande fonte de energia era o carvão mineral.
Segunda Revolução Industrial – compreendida entre as últimas décadas
do século XIX até o final da década de 1970 – século XX. A jornada de trabalho
cai para 8 horas diárias e passa a ser regulamentada por leis trabalhistas, a
partir dos avanços sociais relativos ao processo histórico de cada país. O
petróleo vai substituindo o carvão até se constituir na principal fonte de
energia e a indústria automobilística como maior atividade produtiva.
Terceira Revolução Industrial – conhecida também como Revolução
Técnico-Científica, tem início a apartir da segunda metade da década de 1970,
sendo caracterizada pelo avanço do conhecimento e tecnologia avançada.
As jornadas de trabalho são mantidas em 8 horas diárias. Os setores de
ponta são a informática, a robótica, as telecomunicações, a química fina e a
biotecnologia. Neste período, temos uma diversificação quanto às fontes de
energia – hidrogênio, energia solar, etc.
A Revolução Industrial favoreceu também o desenvolvimento dos
transportes. Logo vieram a locomotiva e a navegação a vapor, o que fez com
que houvesse uma redução nos custos dos fretes, baixando os preços dos
produtos e aumentando o consumo.
Com a Revolução Industrial, a Inglaterra se transformou no maior
produtor e exportador de produtos manufaturados e a população dos centros
urbanos cresceu assustadoramente. Não podemos esquecer de que havia
nesse país matérias-primas indispensáveis para o funcionamento e a
construção dessas máquinas – carvão e ferro.
E, então, você já pode imaginar o que foi acontecendo: a burguesia
investiu na inovação tecnológica e as máquinas foram cada vez mais se
aprimorando e aumentando a produção que se expandia por todo o mundo,
estabelecendo laços de dependência entre as nações.
O trabalho assalariado que substitui o trabalho artesanal ganha força
utilizando-se fortemente da mão-de-obra feminina e infantil e a energia a
vapor cresce em lugar da energia humana.
Revolução Francesa
A Revolução Francesa é um importante marco histórico da transição do
feudalismo para o capitalismo, inaugurando um novo modelo de sociedade
baseada na economia de mercado.
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
A Revolução Francesa significou o colapso das instituições feudais do
Antigo Regime e o fim da monarquia absoluta na França. Ao mesmo tempo,
propiciou a ascensão da burguesia ao poder político, fortalecendo as condições
essenciais para a consolidação do capitalismo.
Movimento político de extrema relevância para o continente europeu e
para o Ocidente, a Revolução Francesa teve início em 1789 e se prolongou
até 1815. Sofreu grande influência dos ideais do Iluminismo, baseando-se
no direito à liberdade, à igualdade e à fraternidade e nos princípios
democráticos e liberais da Independência Americana(1776).
O êxito do processo revolucionário francês, encerrando os privilégios
da nobreza e do clero, serviu de motivação para novos movimentos em
direção ao igualitarismo em outras partes da Europa.
A Revolução Francesa pode ser subdividida em quatro grandes
períodos: a Assembléia Constituinte, a Assembléia Legislativa, a Convenção
e o Directório.
Causas da Revolução
A Revolução Francesa foi resultado de uma conjugação de fatores
sociais, econômicos, políticos e, pelo menos um desses fatores, é apontado,
pela maioria dos historiadores, como determinante para o desencadeamento
do processo revolucionário. Trata-se do descontentamento do povo com os
abusos e privilégios do regime absolutista.
A composição social da sociedade francesa, na segunda metade do
século XVIII, é marcada por uma rígida hierarquia e estratificação social. A
hierarquia social francesa propiciava honras e privilégios em função do
nascimento e dividia a população de maneira discriminatória segundo ordens
ou estados.
De um lado, duas classes – o clero e a nobreza, que juntas usufruíam
dos privilégios e da riqueza produzida pela sociedade francesa.
O Clero ou 1º Estado composto por importantes membros da Igreja
Católica, originário da nobreza, que em 1789 representava 2% da população
francesa.
A Nobreza ou 2º Estado formado pelo rei e sua família, bem como
outros nobres como: condes, duques, marqueses, aproximava-se de 1,5%
dos habitantes. Controlava a maior parte das terras, concentrando em suas
mãos boa parte de tudo que produziam os camponeses; gozava de inúmeros
privilégios e não pagava impostos.
Do outro lado, o povo – base da sociedade francesa, que sustentava
pelo peso de impostos que pagava, a vida de riqueza e muito luxo dos nobres
e do clero.
O Povo ou 3º Estado era formado pela burguesia, pelos trabalhadores
urbanos (a maioria deles desempregados), artesãos e camponeses - sans
cullotes.
SOCIOLOGIA APLICADA
O desenvolvimento do comércio e da indústria, assim como a conquista
de novos mercados na Europa e fora dela, fizeram a burguesia acumular
riquezas muito rapidamente. A confortável posição que desfrutava no campo
dos negócios, contrastava com a desfavorável condição que a burguesia
ocupava na vida política do regime absolutista. Apesar de rica, a estrutura
social francesa barrava a ascensão da burguesia, uma vez que os privilégios,
honras e títulos estavam reservados somente à nobreza e ao alto clero.
Além disso, a má administração das finanças, a cobrança excessiva de
impostos e os gastos descontrolados da nobreza eram considerados
obstáculos aos interesses burgueses.
Os camponeses e os trabalhadores urbanos que representavam a
esmagadora maioria da população francesa viviam em precárias condições
de vida e de existência, ou seja, em quase absoluta miséria.
No campo, embora grande parte dos camponeses fosse livre, somente
uma pequena parcela podia manter-se com a produção da terra. A elevada
carga de impostos relegou boa parte dos pequenos proprietários a subsistir
trabalhando nas propriedades dos grandes senhores ou dedicar-se a
produção artesanal.
Por outro lado, o progresso industrial não representou para a classe
trabalhadora operária uma melhoria das condições de vida e de trabalho. A
classe operária convivia com salários muito baixos e com altos níveis de
desemprego.
O quadro de desigualdade social da sociedade francesa, alimentado
pela crise econômico-financeira do Antigo Regime, tornou ainda mais precárias
as condições em que viviam os trabalhadores do campo e da cidade.
Relegados a condições miseráveis de existência, camponeses e trabalhadores
urbanos desejavam novas formas de vida e de trabalho.
As origens do processo revolucionário francês de 1789 devem ser
buscadas nas contradições dos interesses estabelecidos pelo regime
absolutista e as novas forças sociais que estavam em ascensão. Ou seja, os
interesses econômicos e políticos da nova e poderosa classe burguesa
sufocada por uma organização social aristocrática e decadente fizeram
despertar o povo (o terceiro estado), que passou a rejeitar as ordens, as
diferenças sociais e as restrições. Diante das promessas igualdade e
fraternidade, o povo foi atraído para a causa
revolucionária.
A SOCIOLOGIA SE ESTABELECE COMO
CIÊNCIA
Tendo em vista todos estes
acontecimentos, Augusto Comte (1798-
1857) defende uma proposta para resolver
os problemas da sociedade de sua época que
viria através da reforma intelectual do homem
alcançando a reforma das instituições.
Liberalismo: corrente
política de pensamento que
defende a liberdade do indivíduo
frente ao
intervencionismo do Estado.
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Estas reformas estavam embasadas no Liberalismo que triunfara no
século XIX e pregava a liberdade e a igualdade inata entre os homens. Porém,
suas reformas estabeleciam a autoridade e a ordem pública contra os abusos
do individualismo da Escola Liberal (RIBEIRO JR. 1988:15).
A Sociologia nasce como resposta a esse individualismo pregado pela
sociedade capitalista e vai assim enfatizar as ações altruístas entre os
homens.
O positivismo de Comte comparava a sociedade à vida orgânica, cujas
partes que a constituem desempenham funções que se orientam para a
preservação do todo. Sendo assim, a sociedade não poderia sofrer revoluções
violentas e sim se desenvolver harmoniosamente. Repudia o laissez-faire
do Liberalismo, pregando o planejamento social.
Comte defendia a idéia de que as ciências deveriam atingir a máxima
objetividade possível.
A influência de Comte foi além da escola francesa, atingindo também
os republicanos no Brasil, como podemos observar, o lema na bandeira
nacional “Ordem e Progresso”.
A especificidade do conhecimento sociológico
As ciências se distinguem pelos seus objetos de estudo e pelos seus
métodos.
E com a Sociologia não vai ser diferente. Se observarmos uma
sociedade, veremos que os homens praticam atos que podemos chamar de
individuais, tais como: dormir, respirar, caminhar, como também, praticam atos
considerados sociais – casar, fazer reuniões, pedir demissão – são situações
que só podem ser entendidas através das relações que se estabelecem
entre indivíduos ou grupos de indivíduos e que não podem ser entendidas
isoladamente. São estes fatos coletivos que interessam à Sociologia, pois
suas causas são encontradas não no individual, mas sim na sociedade.
É HORA DE SE AVALIAR!
Não esqueça de realizar as atividades desta unidade de
estudo, presentes no caderno de exercício! Elas irão ajudálo
a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no
processo de ensino-aprendizagem. Caso prefira, redija as
respostas no caderno e depois as envie através do nosso
ambiente virtual de aprendizagem (AVA). Interaja conosco!
Nesta primeira unidade estudamos a formação da Sociologia como
conhecimento científico. Na próxima unidade, estudaremos a Sociologia
Clássica. Espero você na próxima unidade. Temos muito que estudar!
Positivismo: corrente filosófica
cujo iniciador foi
Augusto Comte. Defendia a
ciência acima de tudo.
Laissez-faire: expressão
francesa que transmite uma
das essências do Liberalismo
que dizia: deixai - fazer, ou
seja, o homem era livre para
fazer o que quisesse.
Objeto de estudo: aquilo
que vai ser estudado pelo cientista.
EXERCÍCIOS DE AUTO-AVALIAÇÃO
1. A partir da transição feudal-capitalista, surge uma nova postura intelectual
do homem, nova forma de ver a realidade e uma nova maneira de interpretar
as coisas sagradas, que o colocava numa condição de liberdade, rompendo
com a submissão diante da autoridade divina:
a) existencialismo;
b) positivismo;
c) marxismo;
d) racionalismo;
e) tomismo.
2. A Sociologia é a ciência que estuda as ações humanas sob qual perspectiva?
a) As ações humanas fora do contexto histórico-social;
b) As ações humanas comparativamente às demais espécies animais;
c) As ações humanas tomadas isoladamente;
d) As ações humanas tomadas em coletividade;
e) As ações humanas tomadas em estado de natureza.
3. Dentre os pensadores iluministas, destacamos Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), que defendia a idéia de:
a) procura do lucro individual sem escrúpulos;
b) centralização política em torno de um Estado forte;
c) intolerância religiosa;
d) um estado democrático que garanta igualdade para todos;
e) divisão do poder político em Legislativo, Executivo e Judiciário.
4. A Crise Geral do Feudalismo do século XIV, só foi superada em função da:
a) retomada do crescimento populacional, agrícola e comercial;
b) linha de crédito bancária obtida junto aos reis;
c) Revolução Industrial Inglesa;
d) fatores naturais dada a fé religiosa do povo;
e) união entre todos os segmentos sociais em torno do Pacto de Moncloa.
5. A produção industrial trouxe consigo uma nova forma de expressão do
trabalho:
a) servil;
b) escravo;
c) voluntário;
d) assalariado;
e) terceirizado.
10
UNIDADE 1 - A FORMAÇÃO DA SOCIOLOGIA COMO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
6. A Revolução Industrial inglesa, utiliza em seus momentos iniciais, que tipos
de energia?
a) Energia humana e energia eólica;
b) Energia humana e energia a vapor;
c) Energia humana e energia nuclear;
d) Energia humana e energia elétrica;
e) Energia humana e energia solar.
7. Que tipo de motivação, inserida na lógica do capitalismo, levou a classe
burguesa a investir em “inventos”?
a) Acompanhar o ritmo de produção da classe trabalhadora;
b) Retração da produção para atendimento do mercado interno;
c) Atender as exigências dos reis;
d) Renovação do parque industrial;
e) Racionalização e aumento da produção.
8. Com a Revolução Industrial, que tipo de fenômeno populacional se deu
na Inglaterra?
a) Aumento vertiginoso das populações urbanas;
b) Envelhecimento assustador da população adulta;
c) Aumento da população feminina, uma vez que o número de óbito entre
os homens aumentou em face da exploração desumana do trabalhador;
d) Alta na taxa de mortalidade infantil, num processo de contaminação
produzida pelas máquinas;
e) Aumento da taxa de mortalidade, tanto dos homens quanto das mulheres,
em razão de que, as condições de trabalho no sistema capitalista,
se apresentavam mais hostis do que as verificadas no sistema
feudal.
EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM E FIXAÇÃO
1. O que foi o Renascimento e quais as suas principais características?
___________________________________________________________
___________________________________________________________
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2. O que foi o “Pacto Colonial” e quais as partes envolvidas neste acordo?
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domingo, 17 de maio de 2009
MOVIMENTOS SOCIAIS
Valéria Pilão
MOVIMENTOS
SOCIAIS
Por que há pessoas que teimam
em se organizar e propor mudanças
para a sociedade?
Você já ouviu falar em movimentos
sociais, não é? Afinal, o que são os movimentos
sociais, e mais, qual a importância
deles para nossa vida cotidiana?
Na história contemporânea temos diversos exemplos de formas
de organizações coletivas, reivindicando as mais diferentes coisas ou
ações caracterizando o que é um movimento social. Como exemplo, citamos o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Fórum Social Mundial (FSM), o movimento hippie, movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento dos sem-teto, o movimento pela “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), os movimentos anti-capitalistas, dentre outros. A lista de movimentos sociais existentes é longa, isso pensando apenas nos séculos XX e XXI.
É pelo significado social e político e, ainda, pela quantidade de movimentos sociais existentes que tal tema é de extrema importância para a Sociologia.
Vamos por partes...
É importante dizer que abordaremos a temática dos movimentos sociais sempre pensando na forma de organização social atual em que vivemos. Portanto, estaremos tratando dos movimentos vinculados ao sistema capitalista. É relevante fazermos tal distinção agora, pois ao longo de toda a História da humanidade, por diversas vezes, os homens tiveram objetivos em comuns, que, por sua vez, os fizeram unir-se. Mas, no entanto, dentro da área de conhecimento da Sociologia, nem sempre estes agrupamentos são tratados como movimentos sociais. Esta diferenciação acontece porque há algumas características dos movimentos sociais existentes no modo de produção capitalista, que não havia nos movimentos presentes na história anteriormente. Por exemplo, o surgimento das cidades, organizadas na forma que conhecemos hoje, desenvolveu-se a partir do século XII, pois estas se organizaram devido às necessidades dos homens da sociedade medieval de realizarem trocas comerciais. Mas, no entanto, sabendo que durante a Idade Média (forma de organização social, existente na história entre os séculos V – XV, na qual a Igreja Católica detinha grande poder de decisão, e tinha sua produção e sociedade organizada nos feudos) a forma de organização social dava-se quase que exclusivamente dentro dos feudos, estas cidades ainda não assumem a importância que as mesmas possuem numa sociedade industrial. Portanto, o modo de vida urbana não fazia parte daquela realidade, impossibilitando encontrar um movimento como, por exemplo, o dos sem-teto.
Com a consolidação do capitalismo a partir do século XVIII, continuou existindo uma separação entre campo e cidade, mas tal distinção não criava um isolamento do campo, ao mesmo tempo em que, o desenvolvimento e o progresso não se restringia à cidade. Em suma, estamos tratando da importância do rural e do urbano para o desenvolvimento capitalista, que cria duas realidades diversas, mas que, no entanto, nunca deixam de estarem vinculadas e apresentando novas necessidades.
Os movimentos sociais são caracterizados por reivindicações que permeiam o interesse de classe do grupo social organizado. Esta é uma outra peculiaridade histórica que só existe no modo de produção capitalista.
Nenhuma forma de organização social até então foi estabelecida por meio do conflito entre duas únicas classes, a saber: a burguesia e o proletariado. Portanto, considerando que o modo de produção capitalista estabeleceu-se com a exploração dos trabalhadores pelos possuidores de capital, todos os movimentos sociais existentes nesta forma de organização social possuem um interesse de classe.
Assim, na sociedade contemporânea, tanto quem vive nas zonas urbanas, como quem vive nas zonas rurais, organizam-se em torno de seus interesses particulares e formam os mais diversos movimentos sociais.
Não negamos a diferença quanto ao ritmo de vida existente para quem mora no campo e para quem vive na cidade; por exemplo: quem mora na cidade sempre se assusta, num primeiro momento, com os horários que as pessoas da zona rural acordam, almoçam e jantam, pois, na maioria das vezes, isso ocorre sempre mais cedo, quando comparada à vida urbana. A comparação contrária também é verdadeira: quem sempre morou no campo fica alucinado com o número de pessoas nas ruas, com a quantidade de carros, de prédios e da corrida contra o tempo de quem vive nas cidades.
Diferenças entre o campo e a cidade existem e, certamente, vão muito além destes dois exemplos acima, mas há também um elemento que une as duas formas de vida aparentemente tão distintas: o fato de que, tanto o homem que vive no campo, como o da cidade, tenha de vender sua força de trabalho para conquistar e obter a sua sobrevivência, pois ambos estão diretamente vinculados à produção capitalista. Sendo assim, os movimentos sociais que se organizam a partir desta realidade social possuem sempre características diversas, mas tendo em comum o fato de possuírem um caráter de classe, e serem organizados pró ou contra algo que seja desnecessário ou necessário à sua sobrevivência.
Os movimentos caracterizam-se por reivindicações diferentes, mas a idéia do movimento social como forma de organização coletiva é extremamente importante neste sistema, pois é a partir deles que se consegue suprir determinadas necessidades dos mais diversos grupos. Assim, não trataremos das associações entre os homens das sociedades pré-capitalistas (formas de organizações sociais existentes antes da vigência do modo de produção capitalista) como movimentos sociais, pois estes não eram caracterizados pelo conflito de classe; e ainda, não tinham uma organização como os movimentos sociais existentes no capitalismo.
PESQUISA:
Pesquise como o modo de produção capitalista, ao longo do século XX, determinou as formas de trabalho encontradas tanto no campo como na cidade, diferenciando-as, e traçando suas semelhanças.
Quando tratamos dos movimentos sociais encontramos diversas características gerais que permeiam a todos eles, uma delas, por exemplo, é o fato de que estes demonstram a possibilidade de atuarem na História de modo à “determinar” como será o seu desenvolvimento. Estamos falando que os indivíduos tornam-se sujeitos históricos quando organizados de forma coletiva e com objetivos em comum, e, portanto, apesar de não terem certezas sobre o futuro do movimento, podem lutar (seja qual for a reivindicação e o projeto) para a inclusão, exclusão ou transformação radical da sociedade.
Esta forma de movimento é muito importante numa sociedade como a que vivemos, pois políticas públicas, tais como: econômicas, sociais, educacionais, trabalhistas, dentre tantas outras, podem ser modificadas, quando indivíduos que isoladamente não possuiriam um grande poder de transformação organizam-se, e com isso, conseguem interferir na sociedade, transformando-a, ou até, mantendo-a de forma a garantir seus interesses.
Podemos citar como exemplo de manifestações sociais que extrapolam a tentativa de reformas e desejam uma transformação social radical da sociedade, a Revolução Cubana, que surge como uma manifestação contrária ao regime ditatorial presente no país, e acaba por culminar num governo socialista, a partir de 1959. Inúmeros exemplos poderiam ser citados para mostrar o homem enquanto sujeito histórico. A partir do momento em que no Brasil tem-se o movimento social dos negros buscando a sua inclusão, umas séries de benefícios foram por este grupo conquistado, como por exemplo: as políticas afirmativas (sobre este assunto ver mais no “Folhas” sobre cultura), isso representa um processo de transformação na organização da sociedade, que para acontecer necessitou que o indivíduo compreendesse seu papel na sociedade como sujeito histórico. Portanto, afirmar que a sociedade é desta ou daquela forma, e que não adianta tentar interferir, pois de nada vai adiantar, é reproduzir um pensamento que na verdade atende aos interesses da classe dominante, já que os movimentos sociais estão presentes na História para demonstrar exatamente o contrário; e que quando os indivíduos organizam-se coletivamente muito da estrutura social pode ser alterada. A princípio, abordaremos este tema de forma mais teórica para melhor definir o que é, quando, como e porque se desenvolvem os movimentos sociais.
Os movimentos sociais apresentam-se ao longo da História de diversas maneiras e por diversos motivos, mas, como já foi afirmado, no modo de produção capitalista, há algumas características em comum a todos eles, por exemplo: em todo movimento social há um princípio norteador.
O que seria este princípio norteador?
Trata-se de um projeto construído coletivamente, na maioria das vezes buscando a solução de um problema, a transformação de uma situação, ou ainda, o retorno a uma situação anterior, na qual os indivíduos entendem que havia uma melhor condição para suas vidas. O que vai estabelecer o tipo de projeto do movimento social será a condição de classe do mesmo. Isso quer dizer que à medida que uma reivindicação é estabelecida como um projeto, como uma ideologia, esta estará buscando interesses que serão contrários ou não à ordem social estabelecida; por exemplo, no caso do sistema capitalista temos duas classes sociais, a burguesia e a classe trabalhadora. E em torno dessas duas classes é que se estabelecem os interesses dos movimentos sociais.
Para uma melhor compreensão do que está sendo dito acima podemos usar como exemplo as reivindicações do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra (MST). Este tem como projeto a realização da reforma agrária que significa o fim dos latifúndios e a possibilidade da existência de pequenas propriedades rurais, nas quais os menos favorecidos, nesta sociedade capitalista, poderiam estabelecer-se de forma a criarem seu sustento através de uma agricultura de subsistência ou organizada em cooperativas.
É importante salientar que a questão da terra no Brasil sempre foi uma das bandeiras dos movimentos sociais, pois em nossa estrutura agrária a concentração de terras e a existência de latifúndios estão presentes desde o início de nossa colonização. Isto porque nossa formação social deu-se em dependência de outros países, consequentemente, nossa produção agrária também.
Para elucidar o que estamos dizendo, podemos citar desde a criação das Capitanias Hereditárias — cuja produção era destinada ao mercado português; um exemplo disso na atualidade é a produção da soja e da laranja que também é destinado ao mercado internacional.
Assim, temos como característica estruturante em nosso país uma produção em larga escala, dependente das necessidades exteriores, com grandes extensões de terras, produzindo uma pequena variedade de produtos.
Podemos ter uma maior clareza desse processo no Brasil, quando utilizamos algumas informações obtidas a partir dos dados cadastrais do INCRA de 1992, no qual fica claro que a concentração de terra no Brasil só tem aumentado. Conforme podemos observar no gráfico abaixo, desde a década de 1960, vem aumentando a porcentagem de propriedades com mais de 1000 hectares em contrapartida, diminuindo aquelas com menos de 100 hectares. Para facilitar a compreensão da imensidão de terras que estamos tratando, cada 1 hectare equivale a 10.000 m2.
Capitanias Hereditárias:
forma inicial da distribuição
das terras brasileiras.
Neste modelo, as terras
eram dadas, pela coroa portuguesa,
para quem tivesse
a possibilidade de investimento
e queria se aventurar
por aqui.
ATIVIDADE:
O que aconteceu no período de 1972 a 1978 que acelerou a concentração fundiária brasileira? Isto
ocorreu em todas as regiões? Por quê?
Quais as conseqüências sociais desse processo no campo e nas cidades?
Essa concentração fundiária causa sérios problemas. Os pequenos produtores não conseguem obter rendimentos significativos, pois lhes falta o essencial – a terra. Considerando que esses produtores são a maioria e que empregam grande parte da força de trabalho do campo, podemos entender muitos fatos, como as precárias condições de vida da maioria da população rural e a venda de terras por parte dos pequenos proprietários para os produtores maiores ou para as grandes empresas.
Em suma, a questão da terra torna-se uma bandeira para os movimentos sociais, pois sua concentração transforma-se em um problema num país de grandes dimensões, e com uma população sem acesso à terra e sem condições de ter acesso àquilo que ela produz.
Quando esta reivindicação é realizada por um agrupamento social organizado, há um interesse de classe sendo defendido. Neste caso específico os que defendem a reforma agrária são contrários à existência dos latifúndios. Temos assim, um conflito de classes e de interesses, no qual a classe que defende a reforma agrária organiza-se como um movimento buscando uma mudança na estrutura fundiária.
Assim sendo, entendemos que uma das características gerais dos movimentos sociais é a condição de classe que o mesmo defende. Um outro exemplo, que poderíamos utilizar para elucidar estas diferentes perspectivas, são os vários movimentos que possuem sua origem na defesa de projetos que não transformam a ordem social vigente, mas sim, defendem a mesma.
Na atualidade, um movimento que pode explicar de maneira clara o que são essas organizações coletivas, que não pensam na organização social de forma a transformá-la e sim de modo a voltar a formas anteriores são os movimentos neonazistas, também conhecidos como skinheads.
Não só no Brasil, mas por todo o mundo ocidental, crescem as manifestações fóbicas a diferentes culturas, nacionalidades e etnias; especificamente aqui há movimentos oriundos da ideologia nazista, que por diversas vezes chegam a matar indivíduos que se vestem ou comportam-se diferentemente do que eles assumem como o correto.
Há um grupo no estado de São Paulo chamado “Carecas do ABC”, cuja atividade coletiva chegou ao extremo de jogarem um garoto pela janela do trem, pois o mesmo era punk. As manifestações homofóbicas também estão presentes, o preconceito contra o negro é outra característica que permeia estes movimentos. Na cidade de Curitiba, capital do estado do Paraná, recentemente (set/2005) um grupo pregando “o orgulho branco” agrediu um negro na região denominada setor histórico. Suas atitudes não pararam por aí, panfletos cujo conteúdo propunha o preconceito ao homossexual e ao negro foram afixados nos postes do local.
Ainda temos um terceiro tipo de movimento social que não só luta pela transformação de uma dada situação, mas também tem como objetivo a transformação radical da forma de organização da sociedade.
O que estamos dizendo, neste caso, é que o coletivo organiza-se a partir de uma necessidade cotidiana, como, por exemplo, melhores condições de trabalho; mas quando o movimento começa a desenvolver seus objetivos transformam-se, a luta intensifica-se, e inicia-se uma tentativa de mudança radical do sistema.
Certamente, o que estamos descrevendo não é nenhuma receita de como o movimento social deve se organizar para se tornar revolucionário, na verdade, para que tal dimensão possa ser atingida há fatores sociais e históricos do momento vivenciado que contribuem para tal formação, portanto, há uma indeterminação histórica, isso quer dizer que há uma impossibilidade, a priori de afirmar o que acontecerá ou não no futuro, se esse caráter revolucionário pode ocorrer ou não.
Esses movimentos geralmente organizam-se a partir de uma reivindicação local e específica, mas, à medida que se desenvolvem, começam a adquirir maior expressão social, extrapolando suas reivindicações iniciais, o que exige do próprio movimento um novo projeto e uma nova proposta para o futuro.
Estamos dizendo agora que, se por um lado, é possível pensar em movimentos que querem alterar algumas características da realidade social, outros pedem uma volta a antigas formas de pensamento preconceituosas e autoritárias, e ainda, existem os movimentos sociais que criam a possibilidade de uma nova forma de organização social, na tentativa de superarem suas necessidades. Este tipo de movimento tem sua origem marcada pela luta de classes, pois, especificamente, quando falamos da questão do trabalho a diferença entre as mesmas fica mais explícita. É por meio das reivindicações de melhores salários, melhor condição de trabalho que se possibilitam para os trabalhadores a compreensão que realizando apenas algumas reformas na organização da sociedade fica impossível superar determinadas barreiras impostas à sua classe.
PESQUISA:
Realize uma pesquisa buscando um movimento social existente no Brasil que represente uma destas três formas descritas acima, caracterizando-o e compreendendo os motivos que os levaram a defenderem tal causa. Para realizar esta pesquise sugerimos que procure um movimento que exista na sua região, seja ela rural ou urbana.
Assim, caracterizamos três formas de movimentos sociais existentes no capitalismo, e que de alguma forma encontram-se na nossa realidade social. Mas, há de se fazer algumas ressalvas quanto à existência destes movimentos: por mais que historicamente sejam possíveis essas três formações específicas, na atualidade, é perceptível a existência apenas de duas.
É muito mais saliente na nossa vida contemporânea a existência de movimentos sociais que procurem:
a) voltar a realizar ações sociais com características preconceituosas e fóbicas, que já deveriam ter sido superadas, oriundas de organizações sociais e explicativas do mundo datadas de meados do século XX;
b) ou movimentos que busquem uma reforma na ordem social vigente [tentando mudá-la, mas que não almejam uma ruptura radical com a realidade.
As causas para a generalização de formas de movimentos sociais com caráter reformador são várias, podemos citar: a) a reestruturação produtiva iniciada a partir de década de 1970; b) a queda do Muro de Berlim em 1989; c) o fim da URSS em 1991. Essas três transformações históricas acabam por contribuir para uma desorganização da classe trabalhadora, pois em função do primeiro item citado, os trabalhadores não possuem uma identidade coletiva; e em função dos dois últimos fatos, não há mais, supostamente, um projeto alternativo ao capitalismo que contribua e favoreça para que tais tipos de movimentos sociais desenvolvam-se.
Desta forma, trataremos um pouco mais cuidadosamente dos movimentos sociais que apresentam pouca possibilidade de ruptura (transformação radical da sociedade) com a realidade social posta, mas que de alguma forma apresentam alternativas. Um bom exemplo para estas formas de movimento encontra-se no Fórum Social Mundial, realizado desde 2001, que já ocorreu no Brasil, em Porto Alegre, e na Índia, em Mumbai. E será este o caso que abordaremos agora. O Fórum Social Mundial (FSM) foi idealizado e criado a partir da iniciativa de alguns brasileiros que desejavam desenvolver uma resistência ao pensamento dominante, e principalmente, a forma neoliberal de organização política e econômica em que a sociedade encontra-se na atualidade. A vontade de fazer oposição ao neoliberalismo no Fórum Social é tão séria que, as datas para as suas realizações foram programadas sempre concomitantes a do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.
Esse Fórum Econômico é realizado anualmente para discutir os rumos a serem dados à economia dos países centrais e periféricos.
A partir do momento em que surgiu a idéia, criou-se um Comitê Organizador a fim de por em prática o Fórum; o mesmo acabou ocorrendo no ano de 2001, em Porto Alegre, na sua primeira edição, e no mesmo ano foi criado um Conselho Internacional para melhor desenvolver a sua organização e eventos.
Reestruturação Produtiva:
processo de mudança
ocorrido nas indústrias a
partir da década de 1970,
quando há a incorporação,
nas mesmas, das novas
tecnologias micro-eletrônicas,
transformando a produção
e a organização da
fábrica.
Neoliberalismo:
Os princípios do neoliberalismo remontam o liberalismo clássico
de Adam Smith, no qual o mercado não é regulado pelo Estado,
e sim pela livre concorrência. Na atualidade o liberalismo
está sendo reestabelecido de acordo com as novas necessidades
históricas surgidas – por isso, o uso do prefixo neo (novo)
– na política econômica mundial
O FSM é também composto por outros Fóruns realizados paralelamente nas mais diversas regiões, com os mais diversos propósitos. Há os chamados fóruns temáticos: Fórum Mundial da Educação, Fórum sobre “Democracia, Direitos Humanos, Guerra e Tráfico de Droga”; e ainda, os fóruns nacionais e regionais: como por exemplo, Fórum Pan - Amazônico, Fórum Social Africano, entre tantos outros mais. Esta formação caracteriza o FSM como uma série de grandes eventos, nos quais são discutidas as mais diversas temáticas sempre preocupadas com a criação de alternativas para a realidade social. Desta forma, o FSM constitui-se como um espaço de articulação, debate, discussão e reflexão teóricos pelos mais diversos movimentos sociais que participam de suas atividades.
Estes movimentos sociais, por sua vez, possuem os interesses mais diversos, não havendo, portanto, uma prioridade na defesa das lutas.
Todas são importantes e válidas, pois seguindo o projeto norteador do Fórum, cada uma delas possui um contexto específico que as fazem necessárias. Segundo o que diz Boaventura de Sousa Santos, sociólogo e participante do Fórum: “As prioridades políticas estão sempre situadas e dependentes do contexto” (Santos, 2005: 37).
Assim, a impossibilidade da construção de uma alternativa coletiva, geral, ao mesmo tempo em que, possibilita a diversidade e a não imposição de um único modelo como alternativa, também faz com que o ambiente de debate perca-se na preocupação individual de cada movimento. Geralmente, é pensado como uma saída que reforme o sistema, pois para uma transformação radical da sociedade é necessário a existência de um grande movimento social.
Portanto, cada movimento possui suas necessidades, buscam alternativas diferenciadas para seus problemas e utiliza-se do FSM como um momento para suas articulações e debates. Esta característica é tão forte dentro da organização ou realização do Fórum que na sua carta de princípios consta que nenhum dos participantes pode falar em nome do FSM, tamanha é a diversidade de reivindicações e propostas lá encontradas.
Para maiores informações sobre a Carta de Princípios do FSM pode ser consultado o site do Fórum: www.forumsocialmundial.org.br.
Uma outra característica peculiar quanto à constituição do Fórum é o fato do mesmo não possuir qualquer liderança; os seus dois conselhos e o caráter democrático das decisões não permitem que exista uma hierarquia, e ainda é atribuída, por parte dos movimentos sociais que participam do Fórum uma grande importância às redes que são criadas ou possibilitadas por intermédio da Internet. Assim, como afirma o próprio Boaventura: “O FSM é uma utopia radicalmente democrática que celebra a diversidade, a pluralidade e a horizontalidade. Celebra um outro mundo possível, ele mesmo plural nas suas possibilidades”. (Santos, 2005: 89).
As diferenças dos participantes do FSM, portanto, são inúmeras, como já foi afirmado. Há uma pluralidade quanto à sua constituição que fica ainda mais clara quando são discutidas as possibilidades e alternativas para a sociedade. Encontram-se desde os que querem romper drasticamente com esta forma de organização social em que vivemos, até os que reivindicam uma reforma no sistema político, econômico e social, garantindo sua inclusão neste.
O que há em comum em todos eles, e os fazem se reunir é a luta contra as formas devastadoras assumidas pelo neoliberalismo contra as minorias e os não-detentores de capital. Ainda, há também a negação da luta armada, portanto, a busca da transformação (seja ela qual for) dá-se por intermédio da democracia, lutando e idealizando um mundo em paz.
Na verdade essa caracterização atual do Fórum enquanto espaço de movimentos sociais, não é um consenso. Esta é uma posição, por exemplo, de Francisco Withaker (um dos fundadores do FSM e membro das comissões), defensor da idéia de que se uma linha comum for estabelecida, o espaço será perdido e se estará “asfixiando” a própria fonte de vida do Fórum.
Outra posição também encontrada é a de que o Fórum deve ser sim um movimento dos movimentos, isso quer dizer que o Fórum deve assumir uma posição política, pois caso contrário será um espaço que se perderá e não canalizará nenhuma ação concreta, perdendo seu sentido de existência.
Portanto, há um debate interno sobre as características do Fórum, mas independente disso, o fato é que uma ação coletiva com um propósito único, a partir de seus integrantes é impossível de ser pensada, atualmente. “A maioria dos movimentos sociais e organizações têm experiências políticas nas quais momentos de confrontação alternam ou combinam-se com momentos de diálogo e de compromisso [...] em que as denúncias radicais ao capitalismo não paralisam uma energia para as pequenas mudanças quando as grandes não são possíveis”. (SANTOS, 2005: 92).
Essa afirmativa acima do Boaventura de Sousa Santos só vem a reforçar nossas afirmações quanto ao caráter plural e reformador presentes no FSM. Pois, se por um lado, há a possibilidade de uma tentativa individual dos movimentos que leve ao confronto direto ao capitalismo, por outro, a impossibilidade de uma ação conjunta os levam a crerem que grandes mudanças estruturais no sistema sejam impossíveis. Essa discussão que estamos fazendo em torno do FSM, na verdade, caracteriza quase que todos os movimentos sociais presentes da atualidade, por isso, que foi dito anteriormente, que o FSM é representativo de como, hoje, encontram-se os movimentos sociais e quais as suas principais características.
PESQUISA:
Uma afirmação realizada no inicio desta discussão ainda pode ser retomada: foi afirmado que o FSM é representativo dos movimentos sociais que não realizam uma ruptura radical com a realidade, mas também, foi dito, que os movimentos que compõem o Fórum são contrários ao neoliberalismo e buscam alternativas para a sociedade. Assim, com base no que foi dito acima, pesquise os projetos de dois movimentos sociais que participam do Fórum Mundial Social e compare seus objetivos e suas propostas para a sociedade. Para realizar tal pesquisa, sugerimos que se consulte o site ou os materiais impressos pelo Fórum produzidos.
MOVIMENTOS
SOCIAIS
Por que há pessoas que teimam
em se organizar e propor mudanças
para a sociedade?
Você já ouviu falar em movimentos
sociais, não é? Afinal, o que são os movimentos
sociais, e mais, qual a importância
deles para nossa vida cotidiana?
Na história contemporânea temos diversos exemplos de formas
de organizações coletivas, reivindicando as mais diferentes coisas ou
ações caracterizando o que é um movimento social. Como exemplo, citamos o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Fórum Social Mundial (FSM), o movimento hippie, movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento dos sem-teto, o movimento pela “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), os movimentos anti-capitalistas, dentre outros. A lista de movimentos sociais existentes é longa, isso pensando apenas nos séculos XX e XXI.
É pelo significado social e político e, ainda, pela quantidade de movimentos sociais existentes que tal tema é de extrema importância para a Sociologia.
Vamos por partes...
É importante dizer que abordaremos a temática dos movimentos sociais sempre pensando na forma de organização social atual em que vivemos. Portanto, estaremos tratando dos movimentos vinculados ao sistema capitalista. É relevante fazermos tal distinção agora, pois ao longo de toda a História da humanidade, por diversas vezes, os homens tiveram objetivos em comuns, que, por sua vez, os fizeram unir-se. Mas, no entanto, dentro da área de conhecimento da Sociologia, nem sempre estes agrupamentos são tratados como movimentos sociais. Esta diferenciação acontece porque há algumas características dos movimentos sociais existentes no modo de produção capitalista, que não havia nos movimentos presentes na história anteriormente. Por exemplo, o surgimento das cidades, organizadas na forma que conhecemos hoje, desenvolveu-se a partir do século XII, pois estas se organizaram devido às necessidades dos homens da sociedade medieval de realizarem trocas comerciais. Mas, no entanto, sabendo que durante a Idade Média (forma de organização social, existente na história entre os séculos V – XV, na qual a Igreja Católica detinha grande poder de decisão, e tinha sua produção e sociedade organizada nos feudos) a forma de organização social dava-se quase que exclusivamente dentro dos feudos, estas cidades ainda não assumem a importância que as mesmas possuem numa sociedade industrial. Portanto, o modo de vida urbana não fazia parte daquela realidade, impossibilitando encontrar um movimento como, por exemplo, o dos sem-teto.
Com a consolidação do capitalismo a partir do século XVIII, continuou existindo uma separação entre campo e cidade, mas tal distinção não criava um isolamento do campo, ao mesmo tempo em que, o desenvolvimento e o progresso não se restringia à cidade. Em suma, estamos tratando da importância do rural e do urbano para o desenvolvimento capitalista, que cria duas realidades diversas, mas que, no entanto, nunca deixam de estarem vinculadas e apresentando novas necessidades.
Os movimentos sociais são caracterizados por reivindicações que permeiam o interesse de classe do grupo social organizado. Esta é uma outra peculiaridade histórica que só existe no modo de produção capitalista.
Nenhuma forma de organização social até então foi estabelecida por meio do conflito entre duas únicas classes, a saber: a burguesia e o proletariado. Portanto, considerando que o modo de produção capitalista estabeleceu-se com a exploração dos trabalhadores pelos possuidores de capital, todos os movimentos sociais existentes nesta forma de organização social possuem um interesse de classe.
Assim, na sociedade contemporânea, tanto quem vive nas zonas urbanas, como quem vive nas zonas rurais, organizam-se em torno de seus interesses particulares e formam os mais diversos movimentos sociais.
Não negamos a diferença quanto ao ritmo de vida existente para quem mora no campo e para quem vive na cidade; por exemplo: quem mora na cidade sempre se assusta, num primeiro momento, com os horários que as pessoas da zona rural acordam, almoçam e jantam, pois, na maioria das vezes, isso ocorre sempre mais cedo, quando comparada à vida urbana. A comparação contrária também é verdadeira: quem sempre morou no campo fica alucinado com o número de pessoas nas ruas, com a quantidade de carros, de prédios e da corrida contra o tempo de quem vive nas cidades.
Diferenças entre o campo e a cidade existem e, certamente, vão muito além destes dois exemplos acima, mas há também um elemento que une as duas formas de vida aparentemente tão distintas: o fato de que, tanto o homem que vive no campo, como o da cidade, tenha de vender sua força de trabalho para conquistar e obter a sua sobrevivência, pois ambos estão diretamente vinculados à produção capitalista. Sendo assim, os movimentos sociais que se organizam a partir desta realidade social possuem sempre características diversas, mas tendo em comum o fato de possuírem um caráter de classe, e serem organizados pró ou contra algo que seja desnecessário ou necessário à sua sobrevivência.
Os movimentos caracterizam-se por reivindicações diferentes, mas a idéia do movimento social como forma de organização coletiva é extremamente importante neste sistema, pois é a partir deles que se consegue suprir determinadas necessidades dos mais diversos grupos. Assim, não trataremos das associações entre os homens das sociedades pré-capitalistas (formas de organizações sociais existentes antes da vigência do modo de produção capitalista) como movimentos sociais, pois estes não eram caracterizados pelo conflito de classe; e ainda, não tinham uma organização como os movimentos sociais existentes no capitalismo.
PESQUISA:
Pesquise como o modo de produção capitalista, ao longo do século XX, determinou as formas de trabalho encontradas tanto no campo como na cidade, diferenciando-as, e traçando suas semelhanças.
Quando tratamos dos movimentos sociais encontramos diversas características gerais que permeiam a todos eles, uma delas, por exemplo, é o fato de que estes demonstram a possibilidade de atuarem na História de modo à “determinar” como será o seu desenvolvimento. Estamos falando que os indivíduos tornam-se sujeitos históricos quando organizados de forma coletiva e com objetivos em comum, e, portanto, apesar de não terem certezas sobre o futuro do movimento, podem lutar (seja qual for a reivindicação e o projeto) para a inclusão, exclusão ou transformação radical da sociedade.
Esta forma de movimento é muito importante numa sociedade como a que vivemos, pois políticas públicas, tais como: econômicas, sociais, educacionais, trabalhistas, dentre tantas outras, podem ser modificadas, quando indivíduos que isoladamente não possuiriam um grande poder de transformação organizam-se, e com isso, conseguem interferir na sociedade, transformando-a, ou até, mantendo-a de forma a garantir seus interesses.
Podemos citar como exemplo de manifestações sociais que extrapolam a tentativa de reformas e desejam uma transformação social radical da sociedade, a Revolução Cubana, que surge como uma manifestação contrária ao regime ditatorial presente no país, e acaba por culminar num governo socialista, a partir de 1959. Inúmeros exemplos poderiam ser citados para mostrar o homem enquanto sujeito histórico. A partir do momento em que no Brasil tem-se o movimento social dos negros buscando a sua inclusão, umas séries de benefícios foram por este grupo conquistado, como por exemplo: as políticas afirmativas (sobre este assunto ver mais no “Folhas” sobre cultura), isso representa um processo de transformação na organização da sociedade, que para acontecer necessitou que o indivíduo compreendesse seu papel na sociedade como sujeito histórico. Portanto, afirmar que a sociedade é desta ou daquela forma, e que não adianta tentar interferir, pois de nada vai adiantar, é reproduzir um pensamento que na verdade atende aos interesses da classe dominante, já que os movimentos sociais estão presentes na História para demonstrar exatamente o contrário; e que quando os indivíduos organizam-se coletivamente muito da estrutura social pode ser alterada. A princípio, abordaremos este tema de forma mais teórica para melhor definir o que é, quando, como e porque se desenvolvem os movimentos sociais.
Os movimentos sociais apresentam-se ao longo da História de diversas maneiras e por diversos motivos, mas, como já foi afirmado, no modo de produção capitalista, há algumas características em comum a todos eles, por exemplo: em todo movimento social há um princípio norteador.
O que seria este princípio norteador?
Trata-se de um projeto construído coletivamente, na maioria das vezes buscando a solução de um problema, a transformação de uma situação, ou ainda, o retorno a uma situação anterior, na qual os indivíduos entendem que havia uma melhor condição para suas vidas. O que vai estabelecer o tipo de projeto do movimento social será a condição de classe do mesmo. Isso quer dizer que à medida que uma reivindicação é estabelecida como um projeto, como uma ideologia, esta estará buscando interesses que serão contrários ou não à ordem social estabelecida; por exemplo, no caso do sistema capitalista temos duas classes sociais, a burguesia e a classe trabalhadora. E em torno dessas duas classes é que se estabelecem os interesses dos movimentos sociais.
Para uma melhor compreensão do que está sendo dito acima podemos usar como exemplo as reivindicações do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra (MST). Este tem como projeto a realização da reforma agrária que significa o fim dos latifúndios e a possibilidade da existência de pequenas propriedades rurais, nas quais os menos favorecidos, nesta sociedade capitalista, poderiam estabelecer-se de forma a criarem seu sustento através de uma agricultura de subsistência ou organizada em cooperativas.
É importante salientar que a questão da terra no Brasil sempre foi uma das bandeiras dos movimentos sociais, pois em nossa estrutura agrária a concentração de terras e a existência de latifúndios estão presentes desde o início de nossa colonização. Isto porque nossa formação social deu-se em dependência de outros países, consequentemente, nossa produção agrária também.
Para elucidar o que estamos dizendo, podemos citar desde a criação das Capitanias Hereditárias — cuja produção era destinada ao mercado português; um exemplo disso na atualidade é a produção da soja e da laranja que também é destinado ao mercado internacional.
Assim, temos como característica estruturante em nosso país uma produção em larga escala, dependente das necessidades exteriores, com grandes extensões de terras, produzindo uma pequena variedade de produtos.
Podemos ter uma maior clareza desse processo no Brasil, quando utilizamos algumas informações obtidas a partir dos dados cadastrais do INCRA de 1992, no qual fica claro que a concentração de terra no Brasil só tem aumentado. Conforme podemos observar no gráfico abaixo, desde a década de 1960, vem aumentando a porcentagem de propriedades com mais de 1000 hectares em contrapartida, diminuindo aquelas com menos de 100 hectares. Para facilitar a compreensão da imensidão de terras que estamos tratando, cada 1 hectare equivale a 10.000 m2.
Capitanias Hereditárias:
forma inicial da distribuição
das terras brasileiras.
Neste modelo, as terras
eram dadas, pela coroa portuguesa,
para quem tivesse
a possibilidade de investimento
e queria se aventurar
por aqui.
ATIVIDADE:
O que aconteceu no período de 1972 a 1978 que acelerou a concentração fundiária brasileira? Isto
ocorreu em todas as regiões? Por quê?
Quais as conseqüências sociais desse processo no campo e nas cidades?
Essa concentração fundiária causa sérios problemas. Os pequenos produtores não conseguem obter rendimentos significativos, pois lhes falta o essencial – a terra. Considerando que esses produtores são a maioria e que empregam grande parte da força de trabalho do campo, podemos entender muitos fatos, como as precárias condições de vida da maioria da população rural e a venda de terras por parte dos pequenos proprietários para os produtores maiores ou para as grandes empresas.
Em suma, a questão da terra torna-se uma bandeira para os movimentos sociais, pois sua concentração transforma-se em um problema num país de grandes dimensões, e com uma população sem acesso à terra e sem condições de ter acesso àquilo que ela produz.
Quando esta reivindicação é realizada por um agrupamento social organizado, há um interesse de classe sendo defendido. Neste caso específico os que defendem a reforma agrária são contrários à existência dos latifúndios. Temos assim, um conflito de classes e de interesses, no qual a classe que defende a reforma agrária organiza-se como um movimento buscando uma mudança na estrutura fundiária.
Assim sendo, entendemos que uma das características gerais dos movimentos sociais é a condição de classe que o mesmo defende. Um outro exemplo, que poderíamos utilizar para elucidar estas diferentes perspectivas, são os vários movimentos que possuem sua origem na defesa de projetos que não transformam a ordem social vigente, mas sim, defendem a mesma.
Na atualidade, um movimento que pode explicar de maneira clara o que são essas organizações coletivas, que não pensam na organização social de forma a transformá-la e sim de modo a voltar a formas anteriores são os movimentos neonazistas, também conhecidos como skinheads.
Não só no Brasil, mas por todo o mundo ocidental, crescem as manifestações fóbicas a diferentes culturas, nacionalidades e etnias; especificamente aqui há movimentos oriundos da ideologia nazista, que por diversas vezes chegam a matar indivíduos que se vestem ou comportam-se diferentemente do que eles assumem como o correto.
Há um grupo no estado de São Paulo chamado “Carecas do ABC”, cuja atividade coletiva chegou ao extremo de jogarem um garoto pela janela do trem, pois o mesmo era punk. As manifestações homofóbicas também estão presentes, o preconceito contra o negro é outra característica que permeia estes movimentos. Na cidade de Curitiba, capital do estado do Paraná, recentemente (set/2005) um grupo pregando “o orgulho branco” agrediu um negro na região denominada setor histórico. Suas atitudes não pararam por aí, panfletos cujo conteúdo propunha o preconceito ao homossexual e ao negro foram afixados nos postes do local.
Ainda temos um terceiro tipo de movimento social que não só luta pela transformação de uma dada situação, mas também tem como objetivo a transformação radical da forma de organização da sociedade.
O que estamos dizendo, neste caso, é que o coletivo organiza-se a partir de uma necessidade cotidiana, como, por exemplo, melhores condições de trabalho; mas quando o movimento começa a desenvolver seus objetivos transformam-se, a luta intensifica-se, e inicia-se uma tentativa de mudança radical do sistema.
Certamente, o que estamos descrevendo não é nenhuma receita de como o movimento social deve se organizar para se tornar revolucionário, na verdade, para que tal dimensão possa ser atingida há fatores sociais e históricos do momento vivenciado que contribuem para tal formação, portanto, há uma indeterminação histórica, isso quer dizer que há uma impossibilidade, a priori de afirmar o que acontecerá ou não no futuro, se esse caráter revolucionário pode ocorrer ou não.
Esses movimentos geralmente organizam-se a partir de uma reivindicação local e específica, mas, à medida que se desenvolvem, começam a adquirir maior expressão social, extrapolando suas reivindicações iniciais, o que exige do próprio movimento um novo projeto e uma nova proposta para o futuro.
Estamos dizendo agora que, se por um lado, é possível pensar em movimentos que querem alterar algumas características da realidade social, outros pedem uma volta a antigas formas de pensamento preconceituosas e autoritárias, e ainda, existem os movimentos sociais que criam a possibilidade de uma nova forma de organização social, na tentativa de superarem suas necessidades. Este tipo de movimento tem sua origem marcada pela luta de classes, pois, especificamente, quando falamos da questão do trabalho a diferença entre as mesmas fica mais explícita. É por meio das reivindicações de melhores salários, melhor condição de trabalho que se possibilitam para os trabalhadores a compreensão que realizando apenas algumas reformas na organização da sociedade fica impossível superar determinadas barreiras impostas à sua classe.
PESQUISA:
Realize uma pesquisa buscando um movimento social existente no Brasil que represente uma destas três formas descritas acima, caracterizando-o e compreendendo os motivos que os levaram a defenderem tal causa. Para realizar esta pesquise sugerimos que procure um movimento que exista na sua região, seja ela rural ou urbana.
Assim, caracterizamos três formas de movimentos sociais existentes no capitalismo, e que de alguma forma encontram-se na nossa realidade social. Mas, há de se fazer algumas ressalvas quanto à existência destes movimentos: por mais que historicamente sejam possíveis essas três formações específicas, na atualidade, é perceptível a existência apenas de duas.
É muito mais saliente na nossa vida contemporânea a existência de movimentos sociais que procurem:
a) voltar a realizar ações sociais com características preconceituosas e fóbicas, que já deveriam ter sido superadas, oriundas de organizações sociais e explicativas do mundo datadas de meados do século XX;
b) ou movimentos que busquem uma reforma na ordem social vigente [tentando mudá-la, mas que não almejam uma ruptura radical com a realidade.
As causas para a generalização de formas de movimentos sociais com caráter reformador são várias, podemos citar: a) a reestruturação produtiva iniciada a partir de década de 1970; b) a queda do Muro de Berlim em 1989; c) o fim da URSS em 1991. Essas três transformações históricas acabam por contribuir para uma desorganização da classe trabalhadora, pois em função do primeiro item citado, os trabalhadores não possuem uma identidade coletiva; e em função dos dois últimos fatos, não há mais, supostamente, um projeto alternativo ao capitalismo que contribua e favoreça para que tais tipos de movimentos sociais desenvolvam-se.
Desta forma, trataremos um pouco mais cuidadosamente dos movimentos sociais que apresentam pouca possibilidade de ruptura (transformação radical da sociedade) com a realidade social posta, mas que de alguma forma apresentam alternativas. Um bom exemplo para estas formas de movimento encontra-se no Fórum Social Mundial, realizado desde 2001, que já ocorreu no Brasil, em Porto Alegre, e na Índia, em Mumbai. E será este o caso que abordaremos agora. O Fórum Social Mundial (FSM) foi idealizado e criado a partir da iniciativa de alguns brasileiros que desejavam desenvolver uma resistência ao pensamento dominante, e principalmente, a forma neoliberal de organização política e econômica em que a sociedade encontra-se na atualidade. A vontade de fazer oposição ao neoliberalismo no Fórum Social é tão séria que, as datas para as suas realizações foram programadas sempre concomitantes a do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.
Esse Fórum Econômico é realizado anualmente para discutir os rumos a serem dados à economia dos países centrais e periféricos.
A partir do momento em que surgiu a idéia, criou-se um Comitê Organizador a fim de por em prática o Fórum; o mesmo acabou ocorrendo no ano de 2001, em Porto Alegre, na sua primeira edição, e no mesmo ano foi criado um Conselho Internacional para melhor desenvolver a sua organização e eventos.
Reestruturação Produtiva:
processo de mudança
ocorrido nas indústrias a
partir da década de 1970,
quando há a incorporação,
nas mesmas, das novas
tecnologias micro-eletrônicas,
transformando a produção
e a organização da
fábrica.
Neoliberalismo:
Os princípios do neoliberalismo remontam o liberalismo clássico
de Adam Smith, no qual o mercado não é regulado pelo Estado,
e sim pela livre concorrência. Na atualidade o liberalismo
está sendo reestabelecido de acordo com as novas necessidades
históricas surgidas – por isso, o uso do prefixo neo (novo)
– na política econômica mundial
O FSM é também composto por outros Fóruns realizados paralelamente nas mais diversas regiões, com os mais diversos propósitos. Há os chamados fóruns temáticos: Fórum Mundial da Educação, Fórum sobre “Democracia, Direitos Humanos, Guerra e Tráfico de Droga”; e ainda, os fóruns nacionais e regionais: como por exemplo, Fórum Pan - Amazônico, Fórum Social Africano, entre tantos outros mais. Esta formação caracteriza o FSM como uma série de grandes eventos, nos quais são discutidas as mais diversas temáticas sempre preocupadas com a criação de alternativas para a realidade social. Desta forma, o FSM constitui-se como um espaço de articulação, debate, discussão e reflexão teóricos pelos mais diversos movimentos sociais que participam de suas atividades.
Estes movimentos sociais, por sua vez, possuem os interesses mais diversos, não havendo, portanto, uma prioridade na defesa das lutas.
Todas são importantes e válidas, pois seguindo o projeto norteador do Fórum, cada uma delas possui um contexto específico que as fazem necessárias. Segundo o que diz Boaventura de Sousa Santos, sociólogo e participante do Fórum: “As prioridades políticas estão sempre situadas e dependentes do contexto” (Santos, 2005: 37).
Assim, a impossibilidade da construção de uma alternativa coletiva, geral, ao mesmo tempo em que, possibilita a diversidade e a não imposição de um único modelo como alternativa, também faz com que o ambiente de debate perca-se na preocupação individual de cada movimento. Geralmente, é pensado como uma saída que reforme o sistema, pois para uma transformação radical da sociedade é necessário a existência de um grande movimento social.
Portanto, cada movimento possui suas necessidades, buscam alternativas diferenciadas para seus problemas e utiliza-se do FSM como um momento para suas articulações e debates. Esta característica é tão forte dentro da organização ou realização do Fórum que na sua carta de princípios consta que nenhum dos participantes pode falar em nome do FSM, tamanha é a diversidade de reivindicações e propostas lá encontradas.
Para maiores informações sobre a Carta de Princípios do FSM pode ser consultado o site do Fórum: www.forumsocialmundial.org.br.
Uma outra característica peculiar quanto à constituição do Fórum é o fato do mesmo não possuir qualquer liderança; os seus dois conselhos e o caráter democrático das decisões não permitem que exista uma hierarquia, e ainda é atribuída, por parte dos movimentos sociais que participam do Fórum uma grande importância às redes que são criadas ou possibilitadas por intermédio da Internet. Assim, como afirma o próprio Boaventura: “O FSM é uma utopia radicalmente democrática que celebra a diversidade, a pluralidade e a horizontalidade. Celebra um outro mundo possível, ele mesmo plural nas suas possibilidades”. (Santos, 2005: 89).
As diferenças dos participantes do FSM, portanto, são inúmeras, como já foi afirmado. Há uma pluralidade quanto à sua constituição que fica ainda mais clara quando são discutidas as possibilidades e alternativas para a sociedade. Encontram-se desde os que querem romper drasticamente com esta forma de organização social em que vivemos, até os que reivindicam uma reforma no sistema político, econômico e social, garantindo sua inclusão neste.
O que há em comum em todos eles, e os fazem se reunir é a luta contra as formas devastadoras assumidas pelo neoliberalismo contra as minorias e os não-detentores de capital. Ainda, há também a negação da luta armada, portanto, a busca da transformação (seja ela qual for) dá-se por intermédio da democracia, lutando e idealizando um mundo em paz.
Na verdade essa caracterização atual do Fórum enquanto espaço de movimentos sociais, não é um consenso. Esta é uma posição, por exemplo, de Francisco Withaker (um dos fundadores do FSM e membro das comissões), defensor da idéia de que se uma linha comum for estabelecida, o espaço será perdido e se estará “asfixiando” a própria fonte de vida do Fórum.
Outra posição também encontrada é a de que o Fórum deve ser sim um movimento dos movimentos, isso quer dizer que o Fórum deve assumir uma posição política, pois caso contrário será um espaço que se perderá e não canalizará nenhuma ação concreta, perdendo seu sentido de existência.
Portanto, há um debate interno sobre as características do Fórum, mas independente disso, o fato é que uma ação coletiva com um propósito único, a partir de seus integrantes é impossível de ser pensada, atualmente. “A maioria dos movimentos sociais e organizações têm experiências políticas nas quais momentos de confrontação alternam ou combinam-se com momentos de diálogo e de compromisso [...] em que as denúncias radicais ao capitalismo não paralisam uma energia para as pequenas mudanças quando as grandes não são possíveis”. (SANTOS, 2005: 92).
Essa afirmativa acima do Boaventura de Sousa Santos só vem a reforçar nossas afirmações quanto ao caráter plural e reformador presentes no FSM. Pois, se por um lado, há a possibilidade de uma tentativa individual dos movimentos que leve ao confronto direto ao capitalismo, por outro, a impossibilidade de uma ação conjunta os levam a crerem que grandes mudanças estruturais no sistema sejam impossíveis. Essa discussão que estamos fazendo em torno do FSM, na verdade, caracteriza quase que todos os movimentos sociais presentes da atualidade, por isso, que foi dito anteriormente, que o FSM é representativo de como, hoje, encontram-se os movimentos sociais e quais as suas principais características.
PESQUISA:
Uma afirmação realizada no inicio desta discussão ainda pode ser retomada: foi afirmado que o FSM é representativo dos movimentos sociais que não realizam uma ruptura radical com a realidade, mas também, foi dito, que os movimentos que compõem o Fórum são contrários ao neoliberalismo e buscam alternativas para a sociedade. Assim, com base no que foi dito acima, pesquise os projetos de dois movimentos sociais que participam do Fórum Mundial Social e compare seus objetivos e suas propostas para a sociedade. Para realizar tal pesquisa, sugerimos que se consulte o site ou os materiais impressos pelo Fórum produzidos.
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